terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

[À Descoberta de Carrazeda de Ansiães] Igreja Matriz de Marzagão

Em Marzagão sente-se o bafo do castelo. Jaz esta jóia adormecida aos pés de sua mãe. Em preito de densa e saudosa vigília; em mandamento da memória dos cavaleiros que nos sepulcros esquecidos servem de subsolo a uma economia agrária pastoril.
Marzagão! Eis um nome que soa e que enche o peito a seus filhos emigrados, seus actuais cavaleiros de olhos postos na sua bela matriz de granito lavado, restaurada por todos os seus moradores presentes e ausentes.
Este maravilhoso templo, tão harmonioso nas suas linhas singelas, incute suave austeridade e encanto no fresco de seu tecto apainelado com pinturas de santos e de santas de cândida doçura.
Altar-mor de talha dourada, quatro altares laterais e de talha dourada também, de S. Sebastião, Nossa Senhora das Dores e do Sagrado Coração de Jesus; uma torre sineira, um órgão electrónico e um relógio estridente no seu ímpio choro das horas.
De uma só nave e sacristia, tem junto ao púlpito a seguinte inscrição: «Esta igreja tresladada para aqui da primitiva de extra-muros da vila de Ansiães no ano de 1575 e reformou-se no ano de 1765 sendo reitor o doutor António de Sousa Pinto da mesma Freguesia».
É este abade, que o foi durante mais de vinte anos, autor, de colaboração com João Pinto de Morais, abade da Carrazeda, das Memórias de Anciães.
Erectos e juntos às paredes do monumento, erguem-se, exactos e não mutilados, catorze cruzeiros de pedra inteiriça, em adro, onde a cabra não entra. Foi Marzagão da reitoria do padroado real e cabido da comenda de S. João Batista, da Ordem de Cristo, no termo de Anciães e à qual esteve anexa a antiga freguesia de Luzelos que era da apresentação do mesmo reitor de Marzagão (Dicionário Corográfico de Portugal de Américo Costa). Tem festa à Nossa Senhora do Rosário.

Extrato do livro Carrazeda de Ansiães e o Seu Termo, de José Aguilar, publicado em 1980, com edição da Câmara Municipal de Carrazeda de Ansiães.

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Publicada por Anibal G. em À Descoberta de Carrazeda de Ansiães a 2/14/2012 11:10:00 AM

[À Descoberta de Vila Flor] Freguesia Misterio n.56

Durante o mês de fevereiro decorreu o desfio Freguesia Mistério número 55! Ao contrário do que seria de esperar, dado tratar-se de um desafio relativamente fácil de acertar, os participantes foram poucos. Compreendo que, face à facilidade com que se escreve (ou algo parecido) no Facebook, é bastante aborrecido estar a participar em Blogues, ou semelhantes, que saltitam por aí.
Participaram 6 pessoas que fizeram os seguintes palpites:
Candoso (1) 17%
Trindade (3) 50%
Vilas Boas (2) 33%
Um olhar atento permite descobrir pistas que podem dar uma ajuda na identificação da aldeia em questão. Pela posição elevada de onde foi tirada a fotografia só pode estar num vale, e as possibilidades de escolha já ficam mais reduzidas. Depois, há o olival circundante, que é bastante e talvez apontasse para uma aldeia do vale da Vilariça, ou Freixiel. Certo é que a aldeia em questão é Meireles. Quem sobe ao santuário de Nossa Senhora da Assunção, em Vilas Boas, e se debruça sobre o varandim em direção ao Cachão, ou Mirandela,  pode admirar mesmo ali no sopé a montanha a aldeia de Meireles, freguesia de Vilas Boas. A pequena albufeira junto do concentrado urbano não ajudará muito na identificação, uma vez que penso que pouca gente reparará nela. Na fotografia está o núcleo mais antigo da aldeia. As casas mais recentes estende-se mais para norte, perto da estrada nacional.
A resposta certa, era, portanto, Vilas Boas.
O desafio para fevereiro já está "no ar" há vários dias. É mais uma fonte arcada, de mergulho, mas, ao contrário de outras, esta não se encontra em nenhum povoado, estando situada na berma de uma estrada com alguma importância e embutida numa parede. A seca é muita ainda há poucos dias que passei por ela e estava praticamente sem água. A sua posição baixa e a sua localização fazem com que poucas pessoas reparem nela (penso eu).
A questão é: Em que freguesia podemos encontrar esta fonte? O palpite pode ser dado, como sempre, na margem direita do Blogue.

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Publicada por Anibal G. em À Descoberta de Vila Flor a 2/14/2012 06:52:00 AM

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

[À Descoberta de Vila Flor] Para lá do que se vê

"Para lá do que se vê" é uma expressão usada pelo Timon no filme da Disney Rei Leão. É um filme animado, muito divertido e que me faz lembrar determinado período do crescimento do meu filho mais velho. Esta expressão vem-me à memória quando subo aos locais mais elevados de onde se avista um grande espaço de horizonte. Para lá do que se vê, está o imaginável, o mistério, o desconhecido. Mas, para um bom caminheiro, o que não se vê pode ficar visível, depois de algumas horas de caminhada.
Terminou o ciclo de "Peregrinações" embora ainda me falte mostrar fotografias daquelas que já foram feitas este ano. Entretanto, para não se perder o entusiasmo, penso em iniciativas que incentivem À Descoberta, percorrendo algo que ainda falte percorrer, ou visitando algum ponto do concelho que ainda não foi desvendado. Já há algumas ideias, e no sábado passado já foram dados os primeiros passos.
Deixo duas fotografias. Uma do vale do Cachão, tirada na Fonte do Seixo, em direção a Meireles, freguesia de Vale Frechoso. A outra, também na mesma freguesia, foi tirada da estrada que desce para Santa Comba da Vilariça. Conseguem distinguir-se alguns terrenos da Quinta do Prado e imaginar-se, para lá do que se vê, o vale da Vilariça.

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Publicada por Anibal G. em À Descoberta de Vila Flor a 2/13/2012 10:39:00 AM

[À Descoberta de Carrazeda de Ansiães] À Descoberta de Seixo de Ansiães (3/3)

Continua de: À Descoberta de Seixo de Ansiães (2/3)
Depois de chegados à recente capela mortuária, está-se, de novo, no largo do Adro, ou seja, no ponto de partida.
A igreja merece uma visita. A paróquia do Seixo teve início no séc. XV, mas este templo não é dessa época. O mais certo é que nada tenha restado das primeiras construções, que devem ter sido, ou uma pequena igreja, ou mesmo uma capela adaptada. No séc. XVIII já existia uma igreja com três altares. Na capela-mor estavam a imagem de S. Sebastião, de um lado, e a de S. António do outro. Nos altares laterais estavam uma imagem de Nossa Senhora do Rosário (vestida a tecido) e Cristo crucificado. Esta imagem de Cristo crucificado pode muito bem ser a que recentemente foi colocada junto à pia batismal, junto à porta principal da igreja. Não sei se existe algum vestígio da dita imagem de Nossa Senhora do Rosário, que na altura tinha uma irmandade na aldeia (havia também as irmandades das Almas e a do Santíssimo Sacramento).
Atualmente há a destacar mais algumas imagens e um altar. Há mais um altar com a imagem de Nossa Senhora de Fátima. Este altar, em talha dourada é bastante mais antigo que os dois altares laterais. Tem um elemento decorativo bastante interessante. Trata-se de uma pomba pintada, ou seja o símbolo do Espírito Santo. Ora, existindo na aldeia uma capela dedicada ao culto do Espírito Santo desde longa data, não terá este altar vindo dessa capela? É bem possível que sim. A imagem do Senhor dos Passos é imponente.
A igreja foi recentemente restaurada quase na totalidade. Quando a visitei, há poucos meses atrás, não tinha sinais evidentes de necessitar de restauro, mas a paróquia tem a vantagem de contar um conjunto de beneméritos que têm gosto no seu templo. Todos os altares foram desmontados e levados para restauro. Foram recolocados, e a igreja foi reaberta ao culto há poucos dias, com a presença de D. José Cordeiro, Bispo de Bragança-Miranda a presidir à celebração da Eucaristia em que concelebraram o Pároco Rev.do Padre Humberto Coelho, o Rev.do Padre José Belmiro e o Rev.do Padre António Bernardo. Para além do restauro dos altares foram também refeitos o teto e o chão da capela-mor, composto parte do chão da igreja e comprado um novo ambão. Uma enorme cruz de madeira, que vai do chão ao teto, foi deslocada mais para a retaguarda da igreja. É uma peça muito bonita, mas não se encontra bem enquadrada neste templo clássico.
Sob uma pia de água benta em granito está esculpido um rosto humano. Dizem que representa o Seixo.
Terminado este percurso pela aldeia, quase de certeza que o olhar foge para o cume do monte onde se ergue uma pequena ermida, a Senhora da Costa. Esta ermida é muito antiga, já existia no séc. XVIII, embora já não seja o mesmo edifício. O anterior, em granito, foi demolido e foi construído outro, Nossa Senhora da Costa "nova".
O acesso ao alto do monte é fácil, mesmo num carro ligeiro, através de um estradão recentemente composto. E vale a pena subir lá ao alto, é um excelente miradouro! São muitos os povoados que daqui se avistam: Lavandeira (com o seu Castelo), Selores, Carrazeda de Ansiães, Beira Grande (ali próximo), Vilarinho da Castanheira, Pinhal do Douro e uma vastidão de paisagem que se estende ao longo do ribeiro da Vila, da queda de água da Ôla (ou Síbio) até ao vale do Douro, onde o rio corre mansinho rodeado de belas quintas com os suas vinhas em socalco. O olhar perde-se par lá do rio.
Junto da ermida há uma pequena gruta nos rochedos que apresenta restos de tinta de um fundo azul com estrelas brancas pintadas. Pensei tratar-se do local de alguma cerimónia, mas ninguém me confirmou se alguma vez ali foi colocada uma imagem. Há a crença de que nessa gruta apareceu Nossa Senhora pela primeira vez. Assim, talvez se perceba melhor a designação de Nossa Senhora da Lapa, porque também é conhecida. A festa nesta ermida era realizada a 25 de Março, mas agora tem lugar no início de Agosto, com um dos pontos mais altos na procissão com a imagem de Nossa Senhora da Costa.
Para terminar este passeio por Seixo de Ansiães falta referir a simpatia das pessoas com que me cruzei em várias visitas que fiz à aldeia. Em todas senti vaidade no seu torrão, neste caso no seu seixo, e disponibilidade para falarem e mostrarem o que mais apreciam na sua terra. Muito mais coisas haveria a descobrir, mas isso será já tarefa de cada um, se tiverem vontade e gosto em conhecer os recantos do concelho.

Este texto (e algumas das fotografias) foi publicado no jornal O Pombal, em Dezembro de 2011.

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Publicada por Anibal G. em À Descoberta de Carrazeda de Ansiães a 2/13/2012 08:56:00 AM

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

[A Linha é Tua] O que diz a comunicação social - Fev2012

 Outras notícias

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Publicada por Anibal G. em A Linha é Tua a 2/09/2012 08:00:00 PM

[A Linha é Tua] Acidente na barragem do Tua causa cinco feridos

Cinco operários ficaram feridos num acidente de trabalho que ocorreu, ao início da tarde desta quarta-feira, nas obras da barragem do Tua, que está a ser construída entre os concelhos de Carrazeda de Ansiães e Alijó. A frente de obra foi suspensa por ordem da Autoridade para as Condições de Trabalho que já abriu um inquérito para apurar as causas do sinistro.

O comandante dos Bombeiros Voluntários de Alijó, José Rebelo, confirmou, ao JN, que o ferido que inspirou mais cuidados queixava-se que "dores no tórax" e a sua estabilização requereu a presença no local de uma Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER). Os outros trabalhadores envolvidos na ocorrência sofreram ferimentos ligeiros ao nível do tronco e dos braços. Todos foram transportados para o Hospital de Vila Real.

A EDP explicou, em comunicado, que o acidente aconteceu às 14.45 horas "na sequência de um desmonte de rocha efectuado na margem direita do rio Tua (Alijó)", no âmbito da execução do desvio provisório da Estrada Nacional 212. Nesta operação que envolveu explosivos, "fragmentos de rocha atingiram trabalhadores que se encontravam a montar cofragens na boca de saída do túnel de derivação provisória do rio, na margem esquerda (Carrazeda de Ansiães).

Os trabalhadores feridos têm idades compreendidas entre os 25 e os 40 anos e residem na área de Marco de Canaveses, Esposende e Braga.

Este foi o segundo acidente de trabalho, no espaço de duas semanas, nas obras da barragem do Tua. No primeiro, no dia 26 de Janeiro, morreram três operários na sequência de uma derrocada de pedras.

Entretanto, o grupo ambientalista GEOTA enviou esta quarta-feira para a Comissão Europeia uma queixa sobra a barragem de Foz Tua, considerando-a uma das "mais danosas" e defendendo que a sua construção deve "cessar imediatamente".


Fonte: Eduardo Pinto - Jornal de Notícias

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Publicada por Anibal G. em A Linha é Tua a 2/09/2012 01:24:00 PM

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

[À Descoberta de Carrazeda de Ansiães] À Descoberta de Seixo de Ansiães (2/3)

Continuação de: À Descoberta de Seixo de Ansiães (1/3)
Para norte segue a estrada CM1142 que conduz ao campo de futebol e ao cemitério e que depois segue para Besteiros com ligação a Fontelonga (agora com o pavimento recuperado). Em sentido contrário volta-se ao centro da aldeia pela rua do Arieiro, passando junto à sede da Junta de Freguesia. Mas, entrando pela rua da Lameira conhece-se outra vertente da aldeia. Nesta zona as construções são mais recentes e as ruas mais largas. Há um conjunto de ruas paralelas denotando já algum planeamento no seu traçado, coisa pouco habitual nas nossas aldeias. O ponto mais alto, o Calvário sugere a existência de algum símbolo religioso, que ninguém me confirmou. Foi, em tempos, uma das muitas eiras da aldeia, onde se fazia a debulha do cereal.
A rua do Nicho segue em direção à saída da aldeia onde se encontra um bonito recanto constituído por um nicho em granito, com a imagem de Nossa Senhora dos Caminhos e parte de um lagar de azeite. O nicho foi construído há algumas décadas atrás mas o arranjo do espaço foi feito em 2007.
Percorridas algumas dezenas de metros ao longo da estrada municipal 632 é a altura de conhecer a área situada à direita desta estrada, que corta a aldeia em duas. Seguindo pela rua do Loureiro encontram-se, além de bonitos exemplares de habitações, umas antigas alminhas, em granito, aparelhado, já sem qualquer retábulo mas que ainda apresenta vestígios de pintura. É uma peça única, que aparece um pouco desenquadrada embutida numa parede recente. É bem possível que este não seja o seu local primitivo.
Em direção à saída para Beira Grande pode-se admirar mais um cruzeiro, semelhante ao que se encontra mo início da rua da Tapada. Em sentido contrário fica a rua do Pereiro onde se encontra mais um elemento do património edificado que orgulha os residentes, é o Chafariz. É uma segunda fonte arcada.
 Curiosamente a curta distância fica a rua da Fonte Nova. Uma busca pela fonte será infrutífera, mas nem sempre foi assim. Existiu outra fonte nessa rua. A sua localização está assinalada por uma pequena cruz numa rocha da parede. É também pela rua da Fonte Nova que se pode chegar à fonte das Calçadas, local com uma bela paisagem e com uma das lendas mais curiosas de Seixo de Ansiães. Junto desta fonte está a figura de uma ferradura gravada na rocha. Reza a lenda que esta marca foi deixada pelo cavalo do diabo quando este aí apoiou a patas para saltar para a Ôla, queda de água de mais de trinta metros de altura, um pouco abaixo da povoação do Pinhal do Douro, onde o diabo se queria juntar às feiticeiras que aí habitualmente dançam às sextas-feiras, pela meia-noite.
 Deixando a aventura pelo termo para outra altura, pode seguir-se pela rua do Valado para conhecer mais umas alminhas, estas mais preservadas, exibindo um bonito painel em azulejo policromado. Ainda tem mealheiro! É um dos mais bonitos monumentos do género existentes no concelho. Inicialmente estas alminhas encontravam-se no seguimento da rua do Pereiro, num lugar chamado Sobreira. Era essa a principal via de ligação a Coleja e a Senhora da Ribeira.
Continuando no seguimento da rua do Valado entra-se de novo num dos núcleos mais antigos da aldeia. Na periferia do povoado está a pequena capela do Espírito Santo. É uma construção com origem muito antiga. No séc. XVII houve no Seixo a confraria do Espírito Santo e a capela aparece registada num escrito do século seguinte. Foi-me dito que a capela era utilizada por uma comunidade de judeus que vivia num bairro próximo (rua da Carreira), que se fechava ao exterior com uma pesada porta! Mesmo sendo imaginação, o bairro existe, e é constituído por casas muito humildes. Descobri algumas cruzes gravadas nas ombreiras das portas!
 Não entrei na capela do Espírito Santo. O exterior não apresenta grande valor arquitetónico. É um edifício retangular, revestido e pintado de branco, rodeado por um muro em blocos rusticamente colocados. Destaca-se a sua pequena torre sineira, de um único sino, em arco de volta perfeita.

Continua:
À Descoberta de Seixo de Ansiães (3/3)

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Publicada por Anibal G. em À Descoberta de Carrazeda de Ansiães a 2/07/2012 10:55:00 AM

[À Descoberta de Vila Flor] Os caminhos do Cabeço


Se todos os caminhos do mundo vão dar a Roma e os da Europa a São Tiago, todos os caminhos de Trás-os-Montes vão dar ao Santuário de Nossa Senhora da Assunção. Fica a seis quilómetros de Vila Flor na ponta leste do planalto da Carrazeda. Mas há caminhos e caminhos. Ao longo dos tempos, os romeiros privilegiaram alguns. Um deles passava pela minha terra. Toda aquela gente que vinha dos concelhos de Mogadouro, de Vimioso e de Alfândega da Fé descia, nas vésperas do 15 de Agosto, ao Vale da Vilariça para pernoitar connosco.
Chegavam sempre com ar de quem ia para a festa. À noitinha, acomodavam as bestas no olival da igreja e no do castelo. Depois, vinham os romeiros acomodar-se no Terreiro da Fonte para se refrescarem e cearem. E logo que surgia no céu a primeira estrela, saía do bolso o primeiro realejo, depois outro e outro… E começava o animadíssimo baile dos realejos ao luar de Agosto.

Não há amor como o primeiro
Nem luar como o de Janeiro
Mas lá vem o de Agosto
Que lhe dá no rosto.
Era ali o primeiro arraial do Cabeço: dançavam novos e velhos; os de fora com os da terra; jogos de roda e agarradinhos. Também vinham os fadistas cantar fado ao desafio que é o fado típico na Vilariça. Bebia vinho quem gostava, com tremoços e azeitonas, e água da fonte romana, quem queria. Era o arraial mais lindo daquelas redondezas com inveja dos vizinhos.

Mas nunca a inveja medrou
Nem quem ao pé dela morou.

Depois da meia-noite, esmorecia o baile. Era preciso descansar as pernas para, na madrugada do dia seguinte, palmilhar as poucas léguas que ainda faltavam para chegar ao Cabeço.
Nós, os da terra, sempre partíamos lá para o meio da manhã. Só ficavam os tolos, os velhos e os aleijados com a obrigação de guardarem as casas e acomodarem as crias. Mas ficavam com a parte da merenda a que tinham direito.
Algumas mães dificultavam a ida às filhas. Mas bastava elas dizerem que tinham promessas a cumprir e logo as dificuldades se esvaneciam…

Ó minha mãe, deixe, deixe
Ó minha mãe deixe-m' ir
Ó arraial do Cabeço.
Bou lá e torno a bir.
Bou lá e torno a bir,
Num sei se birei ó não…
Ó minha mãe deixe-m' ir
À Senhora d'Assenção.

As filhas aldrabavam. Mas as mães já tinham feito o mesmo às suas… E por aí fora até à Idade Média. Assim rezam as Cantigas de Romaria em que as filhas se iam encontrar com os namorados garantindo às mães que iam pôr velas aos santos ou "candeas queimar". As mães bem o sabiam como o revela um dos nossos Cancioneiros:

Pois nossas madres vam a Sam Simon
De Val de Prados candeas queimar,
nós, as meninhas, punhemos d' andar
Com nossas madres, e elas enton
Queimen candeas por nós e por si
E nós, meninhas, bailaremos i.

Nossos amigos todos lá iran
por nos veer, e andaremos nós
bailando ant'eles, fremosas (en) cós,
e nossas madres, pois que alá van,
queimen candeas por nós e por si
e nós, meninhas, bailaremos i.

Nesse tempo, Portugal e a Galiza, unidos como unha e carne, falavam e escreviam a mesma língua. Curiosamente Carolina Michaelis situa este santuário de San Simon em Trás-os-Montes. Já vem de longe este nosso gostinho pelas romarias.

Excerto do livro "A Romaria do Cabeço" da autoria do Sr. P.e. Joaquim Leite. Pode ser adquirido no Santuário de Nossa Senhora da Assunção, em Vilas Boas.

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Publicada por Anibal G. em À Descoberta de Vila Flor a 2/07/2012 08:13:00 AM

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

[À Descoberta de Carrazeda de Ansiães] À Descoberta de Seixo de Ansiães (1/3)

Seixo de Ansiães é uma aldeia (e freguesia) do concelho de Carrazeda de Ansiães que dista aproximadamente 10 km da sede. Situada no extremo sul, o seu termo compreende uma área de bastante altitude exposta e outra mais protegida, na margem do rio Douro.
Os meus contactos com esta aldeia resumem-se à participação nalgumas atividades desportivas (futebol e também atletismo) durante a minha juventude e a um número considerável de passagens pelo centro da aldeia em visitas a Coleja ou à Senhora da Ribeira.
Na aproximação à aldeia, quer vindo de Carrazeda, via Selores, quer vindo por Fontelonga, via Besteiros, surpreende a rusticidade da paisagem, com formações rochosas em quantidades inimagináveis que formam montes íngremes como a Cabeçoita. Os recentes incêndios que dizimaram grande parte da vegetação, composta essencialmente por giestas e pinheiros, contribuíram para esta imagem agreste.
A estrada que dá acesso à aldeia, via Besteiros, permite prolongar a vista pela encosta abaixo, desde o ponto mais alto, onde se situa Vilarinho da Castanheira, até ao ponto mais distante, onde se adivinha o grande rio. Foi neste vale escavado, onde corre o ribeiro da Vila e onde existiram em tempos inúmeros moinhos de água, que dizem que se formou o primeiro povoado que deu origem a Seixo de Ansiães (sem no entanto haver grandes vestígios arqueológicos que comprovem esta teoria). Certo é que existem algumas ruínas de habitações e as pessoas mais velhas ainda têm memória da antiga capela de S. Bartolomeu nesse local. Em meados do séc. XVIII ali se celebrava uma missa no dia de S. Bartolomeu e há pouco mais de 50 anos a capela ainda tinha telhado.
É, também, nestas quotas mais baixas, perto do rio Douro, que aparecem os mais antigos vestígios da presença humana, principalmente do período de influência romana. São inscrições, habitat e minas. Junto à Quinta de Fonte Santa existem ruínas de umas antigas termas que se mantiveram em funcionamento até à segunda metade do séc. XX. Mas foi no interior da aldeia, ou próximo dela, que centrei a minha atenção, na tentativa de ficar a conhecer melhor Seixo de Ansiães.
O melhor lugar para começar um percurso pela aldeia é o largo do Adro. Há espaço par estacionar o carro, sombra e um café por perto, no caso de se querer tomar alguma coisa antes de começar a volta pelas principais ruas.
Ao longo da rua da Fonte podem ser apreciadas as construções típicas, que se podem encontrar em todas as áreas mais antigas da aldeia. O granito é o material mais utilizado e o caminho de acesso à fonte do Valado também é pavimentado com lajes desta rocha. A fonte do Valado é uma fonte arcada, antiga, que ainda hoje é bastante utilizada, quer para a recolha de água para uso doméstico, quer no bebedouro para os animais, quer para a utilização nos tanques anexos, na lavagem manual da roupa.
Voltando à rua da Fonte, várias são as alternativas na tentativa de encontrar os recantos mais caraterísticos e mais antigos. A rua do Forno seria uma boa escolha, outra é continuar pela rua da Fonte em direção ao antigo campo de futebol. No local está um completo polidesportivo, com bancadas e tudo! A aldeia continua a ter um campo de futebol de onze, a curta distância daí, não sei é se ainda tem gente em número suficiente para fazer duas equipas, e com ganas de jogar.
Depois de percorrida a travessa da Cruzinha, com cheiro a pão acabado de cozer, aparece à entrada da rua da Tapada, o cruzeiro com o mesmo nome. Este cruzeiro está neste local há pouco mais de 30 anos, encontrando-se originalmente a algumas dezenas de metros de distância, no caminho velho que ligava o Seixo a Besteiros. Na base do cruzeiro há uma mensagem gravada que mal se lê. Consegui decifrar as palavras "nós que estamos penando". A frase completa é muitas vezes: "Vós que ides passando orai por nós que estamos penando" mas não a consegui confirmar. Pode também ter as iniciais PNAM, que significa "Pai Nosso e Avé Maria". As pessoas que passavam pelo cruzeiro, rezavam um Pai Nosso e uma Avé Maria e depositavam uma moeda no mealheiro, que serviria para mandar rezar missas pelas almas do purgatório.
Continua
À Descoberta de Seixo de Ansiães (2/3)

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Publicada por Anibal G. em À Descoberta de Carrazeda de Ansiães a 2/02/2012 12:00:00 PM

[À Descoberta de Vila Flor] Em Novembro

Durante o mês e novembro fiz algumas caminhadas pela serra, tendo como principal objetivo a procura de cogumelos. Tinha prometido a mim mesmo fazer algumas reportagens sobre esta iguaria, mas o ano não correu de feição. As chuvas que teimaram em não cair, foram adiando, adiando, aquela que seria a altura propícia para o desenvolvimento dos cogumelos (o que não significa que não se tenham desenvolvido mais tarde, uma vez que os tenho encontrado durante todo o mês de janeiro!).
Se a busca dos cogumelos foi, em parte infrutífera, limitando a pouco mais do que os exemplares que aparecem nas fotografias, as caminhadas serviram sobretudo para proporcionarem bons momentos fotográficos. Estávamos na altura ideal para fotografar o outono, com bonitas folhas de castanheiros e carvalhos, com os medronheiros carregados de frutos, bem como as oliveiras.
Nem sempre o que se encontra é inspirador e belo. Desde que a lixeira foi encerrada surgem cada vez mais montes de lixo, monstros e entulho espalhados pelos caminhos. Numa das vezes encontrei muito, muito lixo, que incluía muitas matrículas de automóveis e documentos, faturas e  documentos fiscais que permitiam facilmente identificar a sua proveniência. Caso estranho, numa das caminhadas de janeiro verifiquei que esse lixo tinha sido removido! O que se terá passado? Gostava de ver mais fiscalização e punição dos infratores.
Dá a impressão que o desenvolvimento não se está a manifestar em civismo, pelo menos por parte de um bom grupo de pessoas, entre os quais empresários de várias áreas, umas vez que os lixos, na maior parte das vezes, não são de origem doméstica.
Descer a serra até perto de Roios permite encontrar uma espécie de microclima que se estende ao longo de vários cursos se água que passam junto da povoação. Neles crescem cogumelos e fetos de várias espécies, protegidos por tojos e silvas que até os animais selvagens têm dificuldades em ultrapassar.
No regresso a casa ainda é o colorido das folhas das videiras que existem em volta de Vila Flor, que desperta à atenção.


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Publicada por Anibal G. em À Descoberta de Vila Flor a 2/02/2012 07:10:00 AM

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

[À Descoberta de Vila Flor] Fonte da Almoinha (Valbom)

Valbom é uma aldeia anexa à freguesia de Trindade que faz fronteira já com Vilares da Vilariça já de Alfândega da Fé, tendo a barragem de permeio.
Fica à direita da via que vem da Ponte do Sabor e segue para Macedo, perto da Ribeira da Vilariça.
Não sendo uma povoação muito grande, torna se aconchegada com o casario à volta da Capela de S. Gregório, numa leve encosta sobre o vale.
Valbom tem duas tabernas, um negociante e dois pastores com outros tantos rebanhos de ovelhas. Têm ainda um forno de cozer o pão. Moinhos havia dois, mas a construção da Barragem de Vilares da Vilariça fê los desaparecer.
O local mais frequentado pelos seus habitantes é o Largo da Cruz, ou então junto à Taberna.
Em Valbom existe uma Fraga que chamam dos Namorados e que tem várias letras e sinais cruciformes. Nos Arrodeios aparecem sepulturas antigas. E na povoação pode se visitar também o Solar, antiga Casa Paroquial dos vigários que residiam naquela aldeia, bem como a Fonte da Almoinha (que é medieval e tem arcada).
Fonte do texto: Virgílio Tavares, Conheça a Nossa Terra -Vila Flor, Editora Cidade Berço, 2001.

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Publicada por Anibal G. em À Descoberta de Vila Flor a 2/01/2012 07:30:00 AM

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

[À Descoberta de Vila Flor] Flor do Mês - Janeiro 2012

 Demorei algum tempo a escolher a flor para representar este mês de janeiro, prestes a findar. Por um lado o leque de escolha é bastante reduzido, depois, as fotografias nem sempre saem como o desejado e não ia mostrar uma flor triste, sem cor. Até foi bom, porque a minha escolha acabou por recair numa espécie bastante bonita e interessante.
A calêndula (Calendula arvensis) tem um colorido que não passa despercebido durante os meses de inverno. Podemos encontrá-la nas encostas da berma da estrada e em terrenos incultos mas é nos terrenos cultivados, como olivais e vinha que ela está bastante presente durante o mês de janeiro. Em todo o vale da Vilariça rivaliza com as margaças (talvez a Chamaemelum fuscatum)e algumas Brassicaceas a alegrar os campos bastante despidos de folhas e de alegria.
A calêndula tem uma parente bastante próxima que quase toda a gente conhece, a calêndula officinalis, muito frequente nos jardins e já conhecida e utilizada como planta medicinal por gregos, romanos, árabes e outras civilizações do oriente. A calêndula escolhida para representar o mês de janeiro tem as flores mais pequenas do que a espécie usada nos jardins, mas partilha com ela a maior parte das características.
É frequente em todo a península Ibérica, nos Açores e Madeira, mas também em grande parte da Europa e África. Trata-se de uma planta anual, que pode atingir mais de 25 cm de altura, com flores alaranjadas ou amareladas. De acordo com os registos da UTAD, a floração ocorre de dezembro a maio. As características botânicas são complexas e por vezes aborrecidas para quem não se interessa por esta matéria, mas há algumas características que são facilmente identificáveis por um leigo. Uma delas é a flor em capítulo, ou seja com um vasto conjunto de flores num disco central, rodeado por um conjunto de flores periféricas que identificamos como "as pétalas". Esta "flor" é sobejamente conhecida nas margaridas, mal-me-queres, girassol ou gerbera.
Os romanos chamavam-lhe solsequium, que significa seguir o sol, uma vez que a calêndula tem um comportamento semelhante ao girassol, seguindo o sol de acordo com a rotação da terra. Ao cair da noite as flores fecham e só se abrem ao nascer do dia.
Toda a planta pode ser usada para fim medicinais, desde as flores às raízes. Na sua composição entram algumas substâncias com interesse medicinal, de entre os quais a calendulina. Tem uma lista enorme de utilizações: uso interno (fervendo flores ou folhas em água ou leite - funciona como regulador do fluxo menstrual, reduz inflamações, aumenta o número de glóbulos vermelhos no sangue e ativa a circulação, servindo ainda como remédio para o estômago, intestino, ulceras gástricas ou infeções causadas por bactérias; uso externo (sob a forma de pomada) - pode ser usada contra queimaduras, contorções, eczema, hemorroides, etc.
É incrível mas não conheço nenhuma utilização desta planta, no concelho!
Em Espanha esta planta tem alguns nomes curiosos, como erva vaqueira, erva do podador, erva lava-mãos, cu-de-velha, pata-de-galo, unha-de-gato, flor dos mortos, etc. Em Portugal a lista é mais curta: Calendula; Erva-vaqueira; Malmequer-dos-campos; Vaqueira.
Quando passar pelos campos nos próximos meses e vir esta planta. é bom lembrar que está ali um espécie vegetal cheia de potencial.

As fotografias foram tiradas durante o mês de Janeiro, entre Roios e Lodões.
Outras Flores do Mês de Janeiro:


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Publicada por Anibal G. em À Descoberta de Vila Flor a 1/31/2012 07:08:00 AM