segunda-feira, 10 de março de 2014

[À Descoberta de Vila Flor] Talefe Fiolho - Lodões

Durante quase dois anos o À Descoberta de Vila Flor andou pelos Pontos Altos, percorrendo caminhos que conduziam a marcos geodésicos, espalhados um pouco por todo o concelho. A altitude, ser ou não um ponto alto, é tudo uma questão de referência e há marcos geodésicos no meio do Vale da Vilariça, bem longe da altitude de um Faro, ou Freixiel.
 Na senda destes pontos, havia um que foi ficando para trás. Situa-se entre os termos de Lodões  e Vale Frechoso, nos limites da Quinta do Prado e conhecido como o marco geodésico do Fiolho. Nunca foram agradáveis as caminhadas entre Roios e Vale Frechoso, ali para os lados da Quinta de S. Estevão e a Quinta do Prado. O terreno é difícil, as estevas são altíssimas, há áreas vedadas por arame farpado e caminhos sem saída. Por isso, a solução foi fazer uma volta maior, mas contornar os obstáculos, seguindo, se necessário, pela estrada.
 Essa caminhada teve lugar no início de novembro, portanto com um clima e uma vegetação bem diferente da que temos agora. Em novembro estávamos em plena época dos cogumelos e foi um dos atrativos da caminhada.
O percurso planeado foi: sair de Vila Flor em direção a Roios, pelas capelinhas; seguir até Vale Frechoso passando junto do marco geodésico do Maragôto;  seguir pela estrada até à Quinta do Prado; contornar a quinta até ao marco geodésico.  Como tínhamos que deslocar-nos para um ponto em que pudéssemos ser “apanhados” pelo “carro de apoio”, optámos por descer até à aldeia de Lodões. Contas feitas por alto… esperavam-nos 16 quilómetros.
 
Apesar do sol que invadia a vila logo pela manhã, o nevoeiro espreitava junto à Quinta da Conceição, a oportunidade de tomar de a tomar de frio. Este cenário é muito habitual, com o nevoeiro junto às primeiras casas de Vila Flor, vindo do vale da Vilariça, hesitando se deve a deve cobrir até ao Barracão ou se deve regressar à sua cama habitual, os vales mais profundos.
O nevoeiro decidiu avançar, mas foi desintegrado mal atingiu a Quinta de S. Domingos, deixando no ar gotículas da sua passagem. Quando começámos a descer atrás da serra ainda se viam alguns “farrapos” que subiam de Vilares de Vilariça em direção ao topo de Bornes. Encontrámos cogumelos, castanhas, medronheiros em flor e uma raposa morta vencida pelos cães de algum pastor.
Em Roios as chaminés ainda fumegavam. Certamente aquecia-se o café da manhã, quem sabe se acompanhado por boas torradas! Mas não havia tempo para grandes paragens. Nos cantos da aldeia cresciam crisântemos. Flores tão belas, que na maior parte das vezes alegram de cor os cemitérios, nesta época do ano.
No que toca a folhagem, as cores do outono estavam bem patentes na vinha virgem que sempre decora a casa dos Barosos, em Roios, nas folhas das videiras, dos diospireiros e nos ouriços dos castanheiros, que ainda apresentavam algumas línguas-de-vaca.
O caminho para atingir Vale Frechoso passa entre o monte do Maragôto e o Monte Pelado.
Chegámos próximo do cemitério de Vale Frechoso ao meio dia! Havia ainda muito caminho para andar, quase outro tanto como o que já tínhamos feito! Ainda parámos para nos refrescarmos na fonte e admirarmos um monumento com Nossa Senhora de Fátima e os Pastorinhos. Ainda “cheirava” a novo!
Seguimos pela estrada, sem paragem na Quinta da Preguiça, em direção a Assares. Passámos muito próximo de uns dos mais antigos marco geodésicos do concelho, Penha dos Abutres, mas com o atraso que levávamos não nos aventurámos a subir ao sítio onde se encontra. Também ali alguns caminhos estão barrados.
Encontrámos a placa indicadora da Quinta do Prado, mas não seguimos o caminho da quinta. Continuámos pela estrada no intuito de contornarmos a quinta, seguindo pela mata de eucaliptos. Nesta mata encontrámos muito lixo, uma verdadeira vergonha. Alguém devia tomar alguma posição.
Entrámos nos limites da quinta e contornámo-la até atingirmos o marco geodésico, o que só aconteceu perto das duas da tarde.
O cansaço já era muito, mas este é mais um dos excelentes miradouros do vale da Vilariça. É pena é que seja tão difícil chegar aqui. Também o cenário da Quinta do Prado, repleta de oliveiras, é algo de extraordinário. As árvores ainda são muito jovens, mas quando crescerem vai ser belo de se ver.
Junto do marco geodésico comemos as já tão desejosas maçãs que levávamos na mochila.  A fome também já apertava.
Já cheios de dores nos pés, o terreno é muito inclinado e perigoso, descemos até à aldeia de Lodões, passando por debaixo do IC5.
Foi uma longa caminhada, só possível porque o tempo estava fresco. Foram muitas as fotografias tiradas a motivos interessantes e outros deplorais, como os depósitos de lixo.
 Esta foi a última caminhada do conjunto Pontos Altos. Haverá que encontrar um motivo (ou uma desculpa) para continuar a percorrer os caminhos do concelho, sempre os mesmos, mas sempre diferentes.
GPSies - VilaFlor_Fiolho

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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 3/10/2014 12:02:00 da manhã

sexta-feira, 7 de março de 2014

[À Descoberta de Vila Flor] Amendoeiras em Flor

O ano 2014 não tem sido simpático, principalmente para mim, amigo do espaços amplos, dos caminhos de terra batida e das estradas onde poucos gostam de circular. A luz, essa tem sido escassa e sem luz não há foto+grafia, essa arte mágica de captar a luz e mete-la dentro de uma caixa, num espaço de poucos centímetros quadrados.
 Mas... quando o céu azul se mostra, tudo muda. As aves que estiveram caladas, expectantes, sobem aos pontos mais vistosos das árvores  e começam a marcar território com os suas notas mais altas, nas suas sinfonias mais exuberantes. Dá gosto ouvir os melros, os tentelhões, mesmo a mais humilde milheirinha se mostra e se faz ouvir, agradecendo a luz, o calor, a pujança de vida que já faz florir os narcisos e jacintos.
Nos campos.. ouvem-se tractores que esventram a terra e até é possível ver um macho, ou um cavalo, atrelado a uma charrua mostrando um quadro rural já pouco visto, mas que nos faz recuar no tempo, sentir o cheiro da terra revirada.
E as encostas estão repletas de brancura. As amendoeiras mostram toda a sua beleza, tão imaculada que parece não ter havido frio, nem chuva, nem nevoeiro, nem vento. Cada árvore é um poema de palavras claras, de deleite para olhar, de energia que faz esquecer tudo, virar a cara para o sol... e sorrir.
 As amendoeiras, no concelho de Vila Flor, estão no ponto máximo de floração. Este fim de semana (e os próximos dias) serão os melhores para visitar o concelho e apreciar este espectáculo magnífico. As amendoeiras não se confinam a nenhuma área específica do concelho. Estão espalhadas um pouco por todas as aldeias e, mesmo no coração de Vila Flor, se podem observar belos exemplares de amendoeiras em flor.
Muitos me perguntam - quais os melhores percursos? Todos aqueles onde se anda devagar, sem hora marcada, com espaço e tempo para paragens frequentes. O IC5 está fora de questão, serve apenas para chegar aos limites do concelho.
Hoje andei pelas aldeias do Arco e Seixo de Manhoses e fiquei impressionado. Há várias estradas que sobem do Vale da Vilariça para Vila Flor. Qualquer uma delas (sem ser o IC5) pode oferecer belas paisagens com amendoeiras em Flor. Mas também no vale do Tua há muitas amendoeiras. A zona de maior altitude, Samões, Candoso, Valtorno, Mourão e Alagoa é aquela onde a floração é mais tardia e será uma espécie de presente para aqueles que não puderem vira agora, porque agora é que é o momento.
 Nos dias 8 e 9 de março haverá animação musical no centro da vila, mostra de artesanato e de produtos da terra (Mostra TerraFlor) onde se poder apreciar, saborear e comprar o que de melhor este concelho tem para oferecer. É uma boa "desculpa" para uma paragem na vila, que oferece também um centro histórico e um museu muito interessantes e cheios de magia, para um fim-de-semana inesquecível.
De que é que está à espera?

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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 3/07/2014 09:50:00 da tarde

segunda-feira, 3 de março de 2014

[À Descoberta de Miranda do Douro] Un suonho

You querie ser ua maripousa
ou un reissenhor,
talbeç ua debanadeira
ou ua rubialba,
querie tener un par d'alas
para poder bolar.

Bolar, bolar, bolar
bolar, bolar sien parar
acontra las nubres
até las óndias de I mar.

You querie ser ua rosa
ou ua dália,
talbeç ua malgarida
ou un lírio,
para poder florir
i no campo drumir.

Florir, florir, florir
florir, florir an quebres
burmeilhas i azules
i la natureza sentir.


Ana Patrícia Poço, 5º anho,
E.B. 2,3 de Sendin.

La Gameta, rebista de is alunos de lhéngua i cultura mirandesa
númaro dous
setembre-junho 2004/2005


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Publicada por Blogger às À Descoberta de Miranda do Douro a 3/03/2014 08:44:00 da tarde

domingo, 2 de março de 2014

[À Descoberta de Vila Flor] Mostra TerraFlor 2014

Somos Portugal - José Malhoa
 O Programa das Amendoeiras em Flor 2014, em Vila Flor, iniciou-se no dia 22 de Fevereiro. Com muito poucas amendoeiras em flor, a minha atenção, bem como a de muitos dos visitantes que estiveram em Vila Flor durante o fim-de-semana, centrou-se na Mostra TerraFlor, uma mostra de produtos do concelho e artesanato.
Somos Portugal - Nuno Eiró e Mónica Jardim
Não foi a primeira vez que se fizeram mostras de produtos da terra e de artesanato, mas, desta feita, vai-se lá saber porquê, tudo teve outra dimensão. Certamente que esta aposta se deve também à reformulação do edil, que gere o concelho, que, não sendo propriamente novo nas funções, sofreu algumas reformulações, surgindo com mais frescura, coragem e até emoção.
Vinhos Quinta do Granjal
 A dimensão que esta mostra alcançou é também fruto da transmissão em direto do Somos Portugal, pela TVI, durante toda a tarde de domingo (dia 23). Já estive presente noutras localidades onde aconteceu a mesma transmissão, ou idêntica, por outro canal e verifiquei que a quantidade de gente que comparece nestes eventos é surpreendente, vá-se lá saber porquê! Talvez seja para ver os seus ídolos musicais, ou para ser "apanhada" por uma das câmaras, para apreciar as bailarinas que não temem o frio do inverno... sei lá.
Alheiras Fumeiro da Glória
A presença da televisão, e o esforço da autarquia, conseguiu uma presença de produtos do concelho superior àquele que vi em alguns eventos da verdadeira TerraFlor. Foram muitos os expositores, esmeraram-se na apresentação e acho que isso se reflectiu nas vendas. Pode ter faltado dinheiro, devido à crise, mas potenciais compradores não faltaram.
A organização dos espaços também foi nova, estando tudo em redor ou dentro do Centro Cultural, com a presença do palco em frente ao edifício da Câmara Municipal.
Durante a manhã do dia 23 tive oportunidade de visitar toda a área de exposição com bastante calma, porque os visitantes ainda eram poucos. Alguns expositores ainda davam os últimos retoques, o que reforça a ideia de que a televisão foi um factor importante.
Restaurante Fumeiro da Brasa
A galeria do centro Cultural estava cheia dos principais produtos da terra. Havia produtores de azeite, de vinho, de cogumelos, mas também de outros produtos menos representativos mas também importantes na economia local. Estão neste leque de produtos, o pão, o fumeiro, o mel, compotas, queijos, frutos secos e azeitonas.
O foyer do Centro Cultural estava repleto do artesanato, uma área que está em franca expansão no concelho. Pelo menos está a ter cada vez mais visibilidade com a organização de mostras mensais, que ocorreram durante o ano de 2013.
Cesto de cogumelos e legumes
No exterior havia um conjunto de barraquinhas que albergaram algumas instituições do concelho, ligados ao turismo, produção de pão, cogumelos, fumeiro, queijo e venda de fruta.
Foi levanta uma enorme tenda, a Tenda Gourmet e pela primeira vez vi uma aposta no gastronomia, com showcooking utilizando produtos de Vila Flor e apresentação de pratos regionais por restaurantes do concelho aderentes.
Artesanato Luísa Correia
 Confesso que fiquei com água na boca, mas não foi com os pratos dos chefes do cartaz, mas sim com os excelentes pratos que os restaurantes apresentaram. Quando vou a um restaurante, ou quando me pedem uma opinião sobre onde comer no concelho, não tenho grande segurança em indicar um bom local. Não é só a qualidade dos pratos e os preços, é também o horário de atendimento e o próprio atendimento que, por vezes, deixa a desejar. Cada um mostrou os seus melhores pratos. Não provei (não sei se alguém provou, havia muita gente) mas já me dei por satisfeito por poder fotografa-los. Fiquei muito bem impressionado.
Vinhos Alto da Caroça
Com o feedback que me chegou, e tenho bastantes fontes, o concelho de Vila Flor ficou muito bem visto, dentro e fora do país.
Penso que as vendas, pelo menos de alguns produtos, foram consideráveis. Eu vi (e fotografei) alguns stands completamente vazios, porque esgotaram os seus produtos!
Fumeiro da Glória
Neste fim-de-semana a Mostra TerraFlor e a animação musical vai continuar. Quase de certeza que não vai haver o enchente de visitantes registados no primeiro fim-de-semana, mas, por outro lado, as amendoeiras estão mais bonitas, oferecendo o seu espectáculo maravilhoso a quem nos queira visitar.
Eu vou estar por cá, e, se o tempo permitir, não vou deixar escapar a possibilidade de apreciar os montes e vales do concelho decorados com bonitas amendoeiras floridas.

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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 3/02/2014 01:16:00 da manhã

domingo, 23 de fevereiro de 2014

[À Descoberta de Vila Flor] Um vendedor de felicidade - conto

Manhã. Feira dos Quinze. No bulício da Praça, um círculo de olhos deslumbrados, para onde convergiam as atenções dos feirantes, como se lá estivesse a redenção das suas faltas e o inicio de um destino feliz.
Meu padrinho oferecera-me dez tostões para comprar um automóvel de folha-de-flandres. O dinheiro fazia-lhe falta, pois vivia com dificuldades económicas, mas não gostava de me ver de cordelinho entre os dedos, pelas ruas, a puxar uma lata de conserva vazia. Os simulacros não eram do seu agrado. A tenda dos brinquedos ficava longe. Tinha tempo. As crianças têm sempre tempo, o que é uma enorme vantagem sobre os adultos. E a minha curiosidade compeliu-me a abrir uma fenda naquela verdadeira muralha humana.
Afastando as calças de burel e cotim com odores a terra estrumada, consegui colocar-me na primeira fila.
Um vento fresco levava para longe os clamores da feira, e, em volta da improvisada arena, tudo parecia suspenso das notas de um cornetim enrouquecido e oxidado. Nos sons, algo mais que vibrações de palhetas; a convocatória, a intimação dos antigos deuses. Tangia-o um homem de olhos cintilantes como os dos encantadores de serpentes.
Sentado na areia, entregue à infinitude de um outro sonho, um garoto debruava os brados do instrumento com rufos compassados de tambor.
Em volta, entre os assistentes, nem uma palavra. Todos, até os mais atilados, faziam o jogo do mago. Integravam-se, sem mínimo desajuste, no círculo expectante — cenário humano uma representação em que os aplausos eram substituídos pela dádiva dos olhares a explodir de pasmo.
O homem pousou o cornetim. Mas o rufo do tambor, numa cadência mais lenta, continuava a alimentar a chama do enigma.
Era o momento da domação do fogo, iniciado com a solenidade de um rito, para o qual o músico ambulante, como adivinho que se preza, cingira as espáduas com um manto de seda cuja cor fora bebida pelo sol e a chuva dos caminhos do mundo.
Então, às golfadas, começou por libertar chamas amarelas, verdes e azuis, que os seus dedos captavam depois, no espaço, fazendo-as regressar, inofensivas, ao ponto de partida.
O mistério, desnudado, oferecia-se à receptividade das imaginações: estava-se perante autêntica manifestação de triunfo sobre o baluarte inexpugnável do impossível.
Aos meus olhos de criança, na sua capa de seda desbotada, o estrangeiro personificava o poder ilimitado e adquiria um nimbo de sobrenaturalidade.
Após ter extinguido definitivamente as chamas, o homem aproximou-se, deixando cair dos olhos sinais de momentânea convivência com forças sobrenaturais, para além do espaço e do tempo.
O garoto suspendera o rufo do tambor. E a voz do mágico elevou-se nos sons inarmónicos da feira:
- Meus senhores, apenas por um escudo não deixem de comprar a felicidade! Não desprezem esta ocasião única! Amanhã estarei longe e o meu caminho jamais se cruzará com os vossos!
Algumas moedas de dez tostões tombaram no maravilhoso das suas mãos. Em troca entregava um papelinho colorido, cuidadosamente dobrado.
Aproximei-me mais. O encantador do fogo reparou em mim. Acariciou-me os cabelos. Senti-me transportado a um mundo maravilhoso. E os dez tostões saltaram-me dos dedos. Renunciara ao carrinho de lata reluzente, la pensando na justificação a dar a meu padrinho (sabia que era feio mentir), quando me voltasse a ver a arrastar a caixinha de conserva.
Já não me lembro do que dizia o meu quadradinho de papel. Sei que o guardei num bolso dos calções, cuidadosamente, e que também sorri para o céu sombrio onde a onde esfacelado por um sol enfraquecido.
E o dia passou.
À noite desejei voltar a ver o bruxo que assim dispunha da vida dos outros, lançando na aridez das suas almas, por pequenas quantias, sementes de perpétua ventura. Queria perguntar-lhe como conseguira aquele poder. Pedir-lhe que me considerasse seu discípulo, por instantes, pois desejava transformar tudo à minha volta! Era preciso que me transmitisse os seus recursos, mesmo sem lhe dar nada em troca, pelo simples facto de lhos prolongar e engrandecer. Era necessário vencer o ódio, a pobreza, a fome, a morte. Era urgente tornar todos os homens mais felizes. Mas todos. É que foram poucos, muito poucos os que, por acaso, vieram à feira dos Quinze.
A Praça estava deserta. Já não era a hora do encantamento. As tílias contorciam-se sob as sacudidelas do vento. E os despojos da feira cirandavam numa dança de negra solidão.
Num recanto, ao fundo, projectado pela abertura de uma barraca de lona, um triângulo de luz.
Espreitei.
Lá dentro, sentado num caixote, cabeça pendida sobre o peito, impotente e imóvel, o domador do fogo, o vidente do destino dos homens, velava o cadáver do filho.
A um canto, inútil, o tambor destruído pelos pneus da camioneta que, ao fim da tarde, ocasionara o desastre.
Voltei a lembrar-me do encontro com os silfos, na manhã deslumbrante e próxima, quando as nuvens, subitamente, se transformaram em fantasmagóricas edificações. E tinha presente, sobretudo, a razão por que voltara ali!
Era indispensável continuar a crer. O homem da transfiguração adiava, decerto, a pronúncia da frase mágica: "Levanta-te e caminha!"
Espreitei de novo.
O mago soerguera a cabeça. Colada no olhar, a impotência de todo o homem. Sulcos de lágrimas estriavam de vulgaridade a pasta branca da sua máscara de dor.
O meu ídolo chorava, como qualquer mortal, ante a evidencia do irremediável.
Caminhei ao longo da Praça, desencantado e vazio. Ninguém me transmitira o poder de transformar o mundo de um momento para o outro. A natureza revestia-se de exactidão. As nuvens eram apenas as nuvens e o vento era simplesmente o vento!
Procurei depois, nos bolsos, o papelinho do meu destino feliz. Amarfanhei-o nos dedos. E o vento arrastou-o para o mistério da noite.
Conto de João de Sá, do livro "Um caminho entre oliveiras", 1998
Este foi um dos livros que o autor me autografou em em 2008, com as palavras "pelo que nos une no amor à terra". Em mais um aniversário do seu falecimento, as suas palavras continuam vivas e cheias de magia.

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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 2/23/2014 12:47:00 da manhã

sábado, 22 de fevereiro de 2014

[À Descoberta de Vila Flor] Amendoeiras em Flor 2014

Está tudo pronto para se iniciarem amanhã as atividades do programa das Amendoeiras em Flor 2014.  O programa deste ano é, de longe, um dos mais ambiciosos dos últimos anos e isso é bem visível nas estruturas que foram montadas ou adaptadas para acolherem expositores, espetáculos musicais e outras iniciativas.
A transmissão em direto pela TVI do programa Somos Portugal é sem dúvida um momento alto das atividades, mas não só. Há imensos espaços de exposição, que hoje ainda estavam vazios, mas amanhã estarão repletos do que de melhor se produz no concelho.
A diluição da feira TerraFlor em eventos que vão acontecendo ao longo do ano permite dar mais alento a estes pequenos certames que doutra forma nunca poderiam atingir a dimensão que pretendem alcançar.
Vamos esperar que o concelho consiga uma grande projeção e que os produtores e artesãos consigam boas vendas, porque a vida não está fácil.



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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 2/22/2014 12:04:00 da manhã

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

[À Descoberta de Mirandela] À Descoberta de Barcel

 Não há melhor maneira de conhecer o concelho do que percorrer os locais,  visitar as aldeias, desbravar os caminhos, a pé. Foi isso o que aconteceu no dia 8 de fevereiro, em Barcel.
O Município organiza, com frequência, passeios pedestres por montes e vales que podem ser feitos por todos, mediante inscrição prévia. A minha vontade era participar em todos mas nem sempre é possível. Por isso foi com satisfação que me dirigi a Barcel para fazer um percurso pedestre.
A aldeia de Barcel não era totalmente desconhecida para mim. Lembro-me de, em adolescente, atravessar o rio Tua numa balsa vindo de Ribeirinha, para fazer uma partida de futebol em Barcel. Mais recentemente, há cerca de um ano, fiz um curto passeio pela aldeia e tirei algumas fotografias.
Estava previsto percorrer 9 km, sendo a caminhada de grau Difícil. Não sei se foi o grau de dificuldade ou se foi o instabilidade das condições atmosféricas, fiquei com a ideia de que o número dos participantes não chegava ao de outros eventos no género. Só contam os que aparecem.
Afinal o tempo até não esteve mau, com ameaça de chuva mas deu para fazer todo o percurso sem problemas.
 A concentração aconteceu no centro da aldeia. A primeira etapa foi uma visita ao local de Longra, local onde por ventura muitos dos caminhantes nunca tinham estado.
Durante algum deslocámo-nos próximo do rio Tua para jusante mas rapidamente entrámos em terreno de forte inclinação. A paisagem não estava muito atrativa, mais pelas condições atmosféricas e pela estação do ano, porque acredito que noutra altura do ano valerá bem a pena fazer o mesmo percurso.
Não foi preciso andar muito para chegarmos ao ponto mais alto da caminhada. Percebi, mais tarde, que cortaram alguns quilómetros à caminhada prevista.
Ainda pensei que fossemos subir ao marco geodésico de Longra, mas apenas passámos perto.
Entrámos no percurso descendente já em direção a Barcel. Visitámos o cruzeiro e as alminhas, onde se voltou a concentrar todo o grupo.
Seguimos depois para a igreja matriz, onde tive muito gosto em entrar. Já tinha estado no adro, mas nunca tinha entrado.
O grupo deslocou-se depois para o salão da freguesia onde chegámos ainda bastante cedo, mas já com vontade de comer alguma coisa.
Foi servida uma canja de galinha, bastante saborosa. Havia também variadas sandes, folar de carne, bolos, fruta, sumo e vinho.
depois de aconchegado o estômago, ainda houve "coragem" para alguns passos de dança, antes do autocarro anunciar o regresso a Mirandela.
Como me desloquei em carro próprio para Barcel, aproveitei para dar mais um passeio pelas principais ruas, mas como disso no início, as condições atmosféricas não eram as melhores para fazer fotografias.
As pessoas de Barcel receberam-nos muito bem e a aldeia é bastante simpática, implantada numa zona ribeirinha muito bonita que será muito interessante continuar a visitar no futuro. Até lá, ficam algumas fotografias do dia 8.



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Publicada por Blogger às À Descoberta de Mirandela a 2/21/2014 11:19:00 da tarde

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

[À Descoberta de Miranda do Douro] Sabores Mirandeses 2014

O festival Sabores Mirandeses que se realizou em Miranda do Douro nos dias 14, 15 e 16 de fevereiro foi uma boa desculpa para passar estes dias no concelho, embora não fosse necessário, porque o concelho já oferece motivos mais que suficientes para me cativar, mesmo sem festival.
À volta dos sabores desenvolvem-se uma série de atividades que atraem muita gente e mostram o grande potencial que o concelho tem.
No campo da gastronomia, o festival é a maior montra do que de melhor se produz no concelho. Este foi a XIII realização do evento. Ao longo dos anos muitas cozinhas tradicionais foram aprimorando a arte de fazer fumeiro e muitas mãos habilidosas tornaram cada vez melhores um conjunto de doces e bolos que também são imagens de marca.
Na área do artesanato também não faltam bons produtos, únicos, como a capa de honras mirandesa ou as cortantes navalhas e faças que se fabricam em vários locais do concelho.
A animação musical não tem necessidade de recorrer a grupos exteriores ao concelho, porque há um bom leque de grupos de Pauliteiros e Pauliteiras e estão a constituir-se novos grupos que tocam instrumentos tradicionais, muitos deles já com CD's editados. A juntar a tudo isto a TVI realizou a partir de Miranda do Douro o programa Somos Portugal, em direto, das 14 às 20 horas de domingo.
Não me foi possível acompanhar a maior parte das iniciativas mas passei muito tempo no Pavilhão Multiusos, fotografando e saboreando alguns dos petiscos que se encontravam à venda.
No dia 15 realizou-se ao I Concurso de Tabafeia Mirandesa. Tabafeia é o nome dado à alheira em Miranda do Douro. Com este concurso nota-se uma preocupação da Câmara Municipal e da Associação Sabores de Miranda neste produto. O processo de certificação já foi iniciado e este concurso foi mais um passo para concentrar atenções no produto. Apresentaram-se 10 concorrentes que foram apreciadas por um leque de três provadores, que selecionaram as 3 melhores Tabafeias.  Gostos não se discutem, mas a verdade é a de que a atribuição dos prémios se refletiu nas vendas. Os três produtores vencedores conseguiram vender todo o stock com grande rapidez.
Durante o dia apresentaram-se dois grupos de Pauliteiros, os de Sendim e os de Palaçoulo.
À noite atuou a Banda Filarmónica Mirandesa, cada vez mais jovem e alegre e o grupo Lenga Lenga. Estive sem ouvir os Lenga Lenga até ao ano passado, mas agora já tive o prazer de os ouvir  e ver 3 vezes. Gosto muito da música tradicional. A flauta pastoril é o instrumento que mais admiro e o grupo faz bom uso deste instrumento.
O movimento na feira também aumentou bastante com a chegada dos participantes no Passeio TT e da Montaria ao Javali realizada no termo de Vila Chã de Braciosa, onde foram abatidos 4 javalis.
O domingo amanheceu mais luminoso e sem chuva, o que permitiu um largo passeio pelos arredores da cidade em busca das amendoeiras em flor.
Ao início da tarde começou a transmissão em direto pela TVI do programa Somos Portugal. Não sou apreciador do tipo de música que o programa apresenta e os apresentadores têm cada vez uma linguagem mais ordinária. Por vezes dão até uma imagens distorcida do concelho, ridicularizando os entrevistados e gozando com os produtos. Não posso é negar que estes programas atraem muitas pessoas!
 Uma curta passagem pelo Largo D. João III fez-me perder algumas atividades como o II Concurso de Mel do Planalto Mirandês e o I Concurso de Bola Doce Mirandesa. No Pavilhão atuaram também o Coro da Universidade Sénior de Miranda do Douro, Ls Mirandum e Varibombos Lérias.
O espaço estava a abarrotar de gente e as vendas ocorriam a bom ritmo. Já no dia 15 vi algumas bancas praticamente vazias, porque tinham vendido todos os seus produtos.
Quase no final da feira atuaram os Pauliteiros de Malhadas.
Os participantes na Montaria ao Javali, ocorrida durante a manhã em Paradela não fizeram o gosto ao dia e  não abateram nenhum animal. Os participantes no no passeio BTT tiveram sorte com o tempo, mas sei bem como são os caminhos do concelho quando estão encharcados.
Quanto à atividade VI Rota das Arribas do Douro, nem sei de que constou! Não me lembro de ver nenhum cartaz... seria um passeio pedestre?
Não fiz nenhuma refeição no recinto do festival. Só depois de muito procurar e que fui informado que o dia 14 foi o Dia do Fumeiro, o dia 15 o Dia do Cordeiro Mirandês e dia 16 o Dia da Vitela Mirandesa. Realmente estava no programa, mas passou-me despercebido. Não me parece que o certame atraia visitantes para comerem no recinto. Claro que os participantes nas batidas, provas de TT, de BTT, e expositores já são muita gente, mas não é destes que estou a falar. Pode ser uma estratégia para que os visitantes se distribuam pelos restaurantes da cidade, mas parece-me uma má opção.
 Acho que no recinto da feira devia haver mais alternativas paras as pessoas provarem os bons pratos mirandeses, fossem eles de cordeiro, de vitela ou outro.
O Festival Sabores Mirandeses foi um excelente ponto de encontro, para rever amigos, uma mostra excecional do fumeiro, doçaria, cutelaria, mel, frutos secos e outros produtos dos do concelho. Compradores não faltaram e, pelos comentários que ouvi, as vendas correram muito bem.
Nos próximos dias não vão faltar Sabores Mirandeses aqui em casa.

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Publicada por Blogger às À Descoberta de Miranda do Douro a 2/19/2014 01:06:00 da manhã

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

[À Descoberta de Vila Flor] e de repente é noite (XXXIV)

 Não é sono nem desmaio nem esquecimento.
Talvez a transmutação adiada da pedra.
Uma palidez que já não lembra
coisas deste mundo.
O pouco que de cá levou
só se adivinha no afilado dos dedos
extenuados de tanto voo
contra os portais da adversidade.
O resto é o que dela em nós ficou:
a paciência dos seus rumos solitários,
o som das suas fontes interiores.
O que se apaga deixa um espaço
para a fatalidade de outros gestos.
Por isso tudo em volta se concentra
numa harmonia apenas intuída,
porque já não ressoa nos sentidos.

Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Cabeço de S. Pedro, Lodões.

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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 2/03/2014 12:57:00 da manhã

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

[A Linha é Tua] Salvar o Tua




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Publicada por Blogger às A Linha é Tua a 1/22/2014 02:03:00 da manhã

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

[À Descoberta de Vila Flor] Vila Flor

Imagem noturna da Praça da República, em Vila Flor.

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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 1/08/2014 11:51:00 da tarde