As amendoeiras em flor vão-se despedindo do concelho, mantendo-se ainda por mais alguns dias nas zonas mais frias, nas proximidades com o concelho de Carrazeda de Ansiães.
Apesar de não ter falado muito sobre a floração deste ano, foi um dos anos em que tirei mais fotografias, embora quase todas nas proximidades da vila.
Conheço já algumas amendoeiras e todos os anos visito as mesmas. É que, ao contrário do que muitos pensam, as flores variam muito em cor, em tamanho e mesmo na forma. Tive mesmo a ideia de fazer uma espécie de catálogo de flores de amendoeira, mas seria uma curiosidade que não teria qualquer interesse para além do fotográfico.
Para matar as saudades a quem não conseguiu ver esta beleza ao vivo, partilho algumas fotografias, de pormenor, que ilustram bem o que disse sobre as cores e formas do flor. Todas as fotografias foram tiradas no raio de 500 metros, entre Vila Flor e Arco.
Tenho mais fotografias, mas ficam na "gaveta" para outro dia.
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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 3/16/2014 07:24:00 da tarde
Concelho:
| Carrazeda de Ansiães | Vila Flor | Miranda do Douro | Mogadouro | Torre de Moncorvo | Freixo de E.C. | Alfândega da Fé | |
domingo, 16 de março de 2014
quarta-feira, 12 de março de 2014
[À Descoberta de Alfândega da Fé] Sardão
Na terra onde o meu pai nasceu
Havia um carrasco
Maior do que o mar.
Do seu topo tocavam-se estrelas e manhãs
E a luz doce do luar.
Os seus galhos eram fortes,
O verde das suas folhas não tinha rival,
E era à sua sombra fresca,
Naqueles meses de um calor de rachar,
Que as gentes daqueles sítios
Paravam para descansar.
Maior do que o mar.
Do seu topo tocavam-se estrelas e manhãs
E a luz doce do luar.
Os seus galhos eram fortes,
O verde das suas folhas não tinha rival,
E era à sua sombra fresca,
Naqueles meses de um calor de rachar,
Que as gentes daqueles sítios
Paravam para descansar.
Na terra onde o meu pai nasceu
Havia uma fraga
Mais velha do que o tempo.
Do seu cume viam-se olgas e olivais
Que foram fontes de sustento.
As suas faces eram da cor dos musgos,
E era na sua grandeza,
Quando a chuva forte estava para chegar,
Que os animais se escondiam,
E os ventos fortes de leste
Gostavam de se sentar.
Havia uma fraga
Mais velha do que o tempo.
Do seu cume viam-se olgas e olivais
Que foram fontes de sustento.
As suas faces eram da cor dos musgos,
E era na sua grandeza,
Quando a chuva forte estava para chegar,
Que os animais se escondiam,
E os ventos fortes de leste
Gostavam de se sentar.
Na terra onde o meu pai nasceu
Havia uma santinha
De muita devoção.
Do seu rosto choviam graças e sorrisos
Que acalmavam o coração.
O seu nome era Bárbara,
E era ao seu coração de santa
Que todos dirigiam rogos e lágrimas,
Quando arribavam fogos sem rumo
E o ribombar das trovoadas.
Havia uma santinha
De muita devoção.
Do seu rosto choviam graças e sorrisos
Que acalmavam o coração.
O seu nome era Bárbara,
E era ao seu coração de santa
Que todos dirigiam rogos e lágrimas,
Quando arribavam fogos sem rumo
E o ribombar das trovoadas.
Na terra onde o meu pai nasceu
Havia uma bela história
Que ainda ninguém quis contar.
Do seu enredo nasci eu
E muito do meu sonhar.
Por muito que os anos corram
E as ervas continuem a cobrir o chão
Nunca te esquecerei,
Ó meu querido Sardão.
Poema de Carlos Afonso, publicado com autorização do autor, a quem agradeço esta partilha íntima.
Havia uma bela história
Que ainda ninguém quis contar.
Do seu enredo nasci eu
E muito do meu sonhar.
Por muito que os anos corram
E as ervas continuem a cobrir o chão
Nunca te esquecerei,
Ó meu querido Sardão.
Poema de Carlos Afonso, publicado com autorização do autor, a quem agradeço esta partilha íntima.
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Publicada por Blogger às À Descoberta de Alfândega da Fé a 3/12/2014 01:24:00 da manhã
segunda-feira, 10 de março de 2014
[À Descoberta de Vila Flor] Talefe Fiolho - Lodões

Na senda destes pontos, havia um que foi ficando para trás. Situa-se entre os termos de Lodões e Vale Frechoso, nos limites da Quinta do Prado e conhecido como o marco geodésico do Fiolho. Nunca foram agradáveis as caminhadas entre Roios e Vale Frechoso, ali para os lados da Quinta de S. Estevão e a Quinta do Prado. O terreno é difícil, as estevas são altíssimas, há áreas vedadas por arame farpado e caminhos sem saída. Por isso, a solução foi fazer uma volta maior, mas contornar os obstáculos, seguindo, se necessário, pela estrada.
Essa caminhada teve lugar no início de novembro, portanto com um clima e uma vegetação bem diferente da que temos agora. Em novembro estávamos em plena época dos cogumelos e foi um dos atrativos da caminhada.
O percurso planeado foi: sair de Vila Flor em direção a Roios, pelas capelinhas; seguir até Vale Frechoso passando junto do marco geodésico do Maragôto; seguir pela estrada até à Quinta do Prado; contornar a quinta até ao marco geodésico. Como tínhamos que deslocar-nos para um ponto em que pudéssemos ser “apanhados” pelo “carro de apoio”, optámos por descer até à aldeia de Lodões. Contas feitas por alto… esperavam-nos 16 quilómetros.
Apesar do sol que invadia a vila logo pela manhã, o nevoeiro espreitava junto à Quinta da Conceição, a oportunidade de tomar de a tomar de frio. Este cenário é muito habitual, com o nevoeiro junto às primeiras casas de Vila Flor, vindo do vale da Vilariça, hesitando se deve a deve cobrir até ao Barracão ou se deve regressar à sua cama habitual, os vales mais profundos.
O nevoeiro decidiu avançar, mas foi desintegrado mal atingiu a Quinta de S. Domingos, deixando no ar gotículas da sua passagem. Quando começámos a descer atrás da serra ainda se viam alguns “farrapos” que subiam de Vilares de Vilariça em direção ao topo de Bornes. Encontrámos cogumelos, castanhas, medronheiros em flor e uma raposa morta vencida pelos cães de algum pastor.
Em Roios as chaminés ainda fumegavam. Certamente aquecia-se o café da manhã, quem sabe se acompanhado por boas torradas! Mas não havia tempo para grandes paragens. Nos cantos da aldeia cresciam crisântemos. Flores tão belas, que na maior parte das vezes alegram de cor os cemitérios, nesta época do ano.
No que toca a folhagem, as cores do outono estavam bem patentes na vinha virgem que sempre decora a casa dos Barosos, em Roios, nas folhas das videiras, dos diospireiros e nos ouriços dos castanheiros, que ainda apresentavam algumas línguas-de-vaca.
O caminho para atingir Vale Frechoso passa entre o monte do Maragôto e o Monte Pelado.
Chegámos próximo do cemitério de Vale Frechoso ao meio dia! Havia ainda muito caminho para andar, quase outro tanto como o que já tínhamos feito! Ainda parámos para nos refrescarmos na fonte e admirarmos um monumento com Nossa Senhora de Fátima e os Pastorinhos. Ainda “cheirava” a novo!
Seguimos pela estrada, sem paragem na Quinta da Preguiça, em direção a Assares. Passámos muito próximo de uns dos mais antigos marco geodésicos do concelho, Penha dos Abutres, mas com o atraso que levávamos não nos aventurámos a subir ao sítio onde se encontra. Também ali alguns caminhos estão barrados.
Encontrámos a placa indicadora da Quinta do Prado, mas não seguimos o caminho da quinta. Continuámos pela estrada no intuito de contornarmos a quinta, seguindo pela mata de eucaliptos. Nesta mata encontrámos muito lixo, uma verdadeira vergonha. Alguém devia tomar alguma posição.
Entrámos nos limites da quinta e contornámo-la até atingirmos o marco geodésico, o que só aconteceu perto das duas da tarde.
O cansaço já era muito, mas este é mais um dos excelentes miradouros do vale da Vilariça. É pena é que seja tão difícil chegar aqui. Também o cenário da Quinta do Prado, repleta de oliveiras, é algo de extraordinário. As árvores ainda são muito jovens, mas quando crescerem vai ser belo de se ver.
Junto do marco geodésico comemos as já tão desejosas maçãs que levávamos na mochila. A fome também já apertava.
Já cheios de dores nos pés, o terreno é muito inclinado e perigoso, descemos até à aldeia de Lodões, passando por debaixo do IC5.
Foi uma longa caminhada, só possível porque o tempo estava fresco. Foram muitas as fotografias tiradas a motivos interessantes e outros deplorais, como os depósitos de lixo.
Esta foi a última caminhada do conjunto Pontos Altos. Haverá que encontrar um motivo (ou uma desculpa) para continuar a percorrer os caminhos do concelho, sempre os mesmos, mas sempre diferentes.
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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 3/10/2014 12:02:00 da manhã
sexta-feira, 7 de março de 2014
[À Descoberta de Vila Flor] Amendoeiras em Flor
O ano 2014 não tem sido simpático, principalmente para mim, amigo do espaços amplos, dos caminhos de terra batida e das estradas onde poucos gostam de circular. A luz, essa tem sido escassa e sem luz não há foto+grafia, essa arte mágica de captar a luz e mete-la dentro de uma caixa, num espaço de poucos centímetros quadrados.
Mas... quando o céu azul se mostra, tudo muda. As aves que estiveram caladas, expectantes, sobem aos pontos mais vistosos das árvores e começam a marcar território com os suas notas mais altas, nas suas sinfonias mais exuberantes. Dá gosto ouvir os melros, os tentelhões, mesmo a mais humilde milheirinha se mostra e se faz ouvir, agradecendo a luz, o calor, a pujança de vida que já faz florir os narcisos e jacintos.
Nos campos.. ouvem-se tractores que esventram a terra e até é possível ver um macho, ou um cavalo, atrelado a uma charrua mostrando um quadro rural já pouco visto, mas que nos faz recuar no tempo, sentir o cheiro da terra revirada.
E as encostas estão repletas de brancura. As amendoeiras mostram toda a sua beleza, tão imaculada que parece não ter havido frio, nem chuva, nem nevoeiro, nem vento. Cada árvore é um poema de palavras claras, de deleite para olhar, de energia que faz esquecer tudo, virar a cara para o sol... e sorrir.
As amendoeiras, no concelho de Vila Flor, estão no ponto máximo de floração. Este fim de semana (e os próximos dias) serão os melhores para visitar o concelho e apreciar este espectáculo magnífico. As amendoeiras não se confinam a nenhuma área específica do concelho. Estão espalhadas um pouco por todas as aldeias e, mesmo no coração de Vila Flor, se podem observar belos exemplares de amendoeiras em flor.
Muitos me perguntam - quais os melhores percursos? Todos aqueles onde se anda devagar, sem hora marcada, com espaço e tempo para paragens frequentes. O IC5 está fora de questão, serve apenas para chegar aos limites do concelho.
Hoje andei pelas aldeias do Arco e Seixo de Manhoses e fiquei impressionado. Há várias estradas que sobem do Vale da Vilariça para Vila Flor. Qualquer uma delas (sem ser o IC5) pode oferecer belas paisagens com amendoeiras em Flor. Mas também no vale do Tua há muitas amendoeiras. A zona de maior altitude, Samões, Candoso, Valtorno, Mourão e Alagoa é aquela onde a floração é mais tardia e será uma espécie de presente para aqueles que não puderem vira agora, porque agora é que é o momento.
Nos dias 8 e 9 de março haverá animação musical no centro da vila, mostra de artesanato e de produtos da terra (Mostra TerraFlor) onde se poder apreciar, saborear e comprar o que de melhor este concelho tem para oferecer. É uma boa "desculpa" para uma paragem na vila, que oferece também um centro histórico e um museu muito interessantes e cheios de magia, para um fim-de-semana inesquecível.
De que é que está à espera?
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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 3/07/2014 09:50:00 da tarde
Mas... quando o céu azul se mostra, tudo muda. As aves que estiveram caladas, expectantes, sobem aos pontos mais vistosos das árvores e começam a marcar território com os suas notas mais altas, nas suas sinfonias mais exuberantes. Dá gosto ouvir os melros, os tentelhões, mesmo a mais humilde milheirinha se mostra e se faz ouvir, agradecendo a luz, o calor, a pujança de vida que já faz florir os narcisos e jacintos.
Nos campos.. ouvem-se tractores que esventram a terra e até é possível ver um macho, ou um cavalo, atrelado a uma charrua mostrando um quadro rural já pouco visto, mas que nos faz recuar no tempo, sentir o cheiro da terra revirada.
E as encostas estão repletas de brancura. As amendoeiras mostram toda a sua beleza, tão imaculada que parece não ter havido frio, nem chuva, nem nevoeiro, nem vento. Cada árvore é um poema de palavras claras, de deleite para olhar, de energia que faz esquecer tudo, virar a cara para o sol... e sorrir.
As amendoeiras, no concelho de Vila Flor, estão no ponto máximo de floração. Este fim de semana (e os próximos dias) serão os melhores para visitar o concelho e apreciar este espectáculo magnífico. As amendoeiras não se confinam a nenhuma área específica do concelho. Estão espalhadas um pouco por todas as aldeias e, mesmo no coração de Vila Flor, se podem observar belos exemplares de amendoeiras em flor.
Muitos me perguntam - quais os melhores percursos? Todos aqueles onde se anda devagar, sem hora marcada, com espaço e tempo para paragens frequentes. O IC5 está fora de questão, serve apenas para chegar aos limites do concelho.
Hoje andei pelas aldeias do Arco e Seixo de Manhoses e fiquei impressionado. Há várias estradas que sobem do Vale da Vilariça para Vila Flor. Qualquer uma delas (sem ser o IC5) pode oferecer belas paisagens com amendoeiras em Flor. Mas também no vale do Tua há muitas amendoeiras. A zona de maior altitude, Samões, Candoso, Valtorno, Mourão e Alagoa é aquela onde a floração é mais tardia e será uma espécie de presente para aqueles que não puderem vira agora, porque agora é que é o momento.
Nos dias 8 e 9 de março haverá animação musical no centro da vila, mostra de artesanato e de produtos da terra (Mostra TerraFlor) onde se poder apreciar, saborear e comprar o que de melhor este concelho tem para oferecer. É uma boa "desculpa" para uma paragem na vila, que oferece também um centro histórico e um museu muito interessantes e cheios de magia, para um fim-de-semana inesquecível.
De que é que está à espera?
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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 3/07/2014 09:50:00 da tarde
segunda-feira, 3 de março de 2014
[À Descoberta de Miranda do Douro] Un suonho
You querie ser ua maripousa
ou un reissenhor,
talbeç ua debanadeira
ou ua rubialba,
querie tener un par d'alas
para poder bolar.
Bolar, bolar, bolar
bolar, bolar sien parar
acontra las nubres
até las óndias de I mar.
You querie ser ua rosa
ou ua dália,
talbeç ua malgarida
ou un lírio,
para poder florir
i no campo drumir.
Florir, florir, florir
florir, florir an quebres
burmeilhas i azules
i la natureza sentir.
--
Publicada por Blogger às À Descoberta de Miranda do Douro a 3/03/2014 08:44:00 da tarde
ou un reissenhor,
talbeç ua debanadeira
ou ua rubialba,
querie tener un par d'alas
para poder bolar.
Bolar, bolar, bolar
bolar, bolar sien parar
acontra las nubres
até las óndias de I mar.
You querie ser ua rosa
ou ua dália,
talbeç ua malgarida
ou un lírio,
para poder florir
i no campo drumir.
Florir, florir, florir
florir, florir an quebres
burmeilhas i azules
i la natureza sentir.
Ana Patrícia Poço, 5º anho,
E.B. 2,3 de Sendin.
La Gameta, rebista de is alunos de lhéngua i cultura mirandesa
númaro dous
setembre-junho 2004/2005
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Publicada por Blogger às À Descoberta de Miranda do Douro a 3/03/2014 08:44:00 da tarde
domingo, 2 de março de 2014
[À Descoberta de Vila Flor] Mostra TerraFlor 2014
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| Somos Portugal - José Malhoa |
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| Somos Portugal - Nuno Eiró e Mónica Jardim |
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| Vinhos Quinta do Granjal |
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| Alheiras Fumeiro da Glória |
A organização dos espaços também foi nova, estando tudo em redor ou dentro do Centro Cultural, com a presença do palco em frente ao edifício da Câmara Municipal.
Durante a manhã do dia 23 tive oportunidade de visitar toda a área de exposição com bastante calma, porque os visitantes ainda eram poucos. Alguns expositores ainda davam os últimos retoques, o que reforça a ideia de que a televisão foi um factor importante.
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| Restaurante Fumeiro da Brasa |
O foyer do Centro Cultural estava repleto do artesanato, uma área que está em franca expansão no concelho. Pelo menos está a ter cada vez mais visibilidade com a organização de mostras mensais, que ocorreram durante o ano de 2013.
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| Cesto de cogumelos e legumes |
Foi levanta uma enorme tenda, a Tenda Gourmet e pela primeira vez vi uma aposta no gastronomia, com showcooking utilizando produtos de Vila Flor e apresentação de pratos regionais por restaurantes do concelho aderentes.
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| Artesanato Luísa Correia |
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| Vinhos Alto da Caroça |
Penso que as vendas, pelo menos de alguns produtos, foram consideráveis. Eu vi (e fotografei) alguns stands completamente vazios, porque esgotaram os seus produtos!
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| Fumeiro da Glória |
Eu vou estar por cá, e, se o tempo permitir, não vou deixar escapar a possibilidade de apreciar os montes e vales do concelho decorados com bonitas amendoeiras floridas.
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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 3/02/2014 01:16:00 da manhã
domingo, 23 de fevereiro de 2014
[À Descoberta de Vila Flor] Um vendedor de felicidade - conto
Manhã. Feira dos Quinze. No bulício da Praça, um círculo de olhos deslumbrados, para onde convergiam as atenções dos feirantes, como se lá estivesse a redenção das suas faltas e o inicio de um destino feliz.Conto de João de Sá, do livro "Um caminho entre oliveiras", 1998
Meu padrinho oferecera-me dez tostões para comprar um automóvel de folha-de-flandres. O dinheiro fazia-lhe falta, pois vivia com dificuldades económicas, mas não gostava de me ver de cordelinho entre os dedos, pelas ruas, a puxar uma lata de conserva vazia. Os simulacros não eram do seu agrado. A tenda dos brinquedos ficava longe. Tinha tempo. As crianças têm sempre tempo, o que é uma enorme vantagem sobre os adultos. E a minha curiosidade compeliu-me a abrir uma fenda naquela verdadeira muralha humana.
Afastando as calças de burel e cotim com odores a terra estrumada, consegui colocar-me na primeira fila.
Um vento fresco levava para longe os clamores da feira, e, em volta da improvisada arena, tudo parecia suspenso das notas de um cornetim enrouquecido e oxidado. Nos sons, algo mais que vibrações de palhetas; a convocatória, a intimação dos antigos deuses. Tangia-o um homem de olhos cintilantes como os dos encantadores de serpentes.
Sentado na areia, entregue à infinitude de um outro sonho, um garoto debruava os brados do instrumento com rufos compassados de tambor.
Em volta, entre os assistentes, nem uma palavra. Todos, até os mais atilados, faziam o jogo do mago. Integravam-se, sem mínimo desajuste, no círculo expectante — cenário humano uma representação em que os aplausos eram substituídos pela dádiva dos olhares a explodir de pasmo.
O homem pousou o cornetim. Mas o rufo do tambor, numa cadência mais lenta, continuava a alimentar a chama do enigma.
Era o momento da domação do fogo, iniciado com a solenidade de um rito, para o qual o músico ambulante, como adivinho que se preza, cingira as espáduas com um manto de seda cuja cor fora bebida pelo sol e a chuva dos caminhos do mundo.
Então, às golfadas, começou por libertar chamas amarelas, verdes e azuis, que os seus dedos captavam depois, no espaço, fazendo-as regressar, inofensivas, ao ponto de partida.
O mistério, desnudado, oferecia-se à receptividade das imaginações: estava-se perante autêntica manifestação de triunfo sobre o baluarte inexpugnável do impossível.
Aos meus olhos de criança, na sua capa de seda desbotada, o estrangeiro personificava o poder ilimitado e adquiria um nimbo de sobrenaturalidade.
Após ter extinguido definitivamente as chamas, o homem aproximou-se, deixando cair dos olhos sinais de momentânea convivência com forças sobrenaturais, para além do espaço e do tempo.
O garoto suspendera o rufo do tambor. E a voz do mágico elevou-se nos sons inarmónicos da feira:
- Meus senhores, apenas por um escudo não deixem de comprar a felicidade! Não desprezem esta ocasião única! Amanhã estarei longe e o meu caminho jamais se cruzará com os vossos!
Algumas moedas de dez tostões tombaram no maravilhoso das suas mãos. Em troca entregava um papelinho colorido, cuidadosamente dobrado.
Aproximei-me mais. O encantador do fogo reparou em mim. Acariciou-me os cabelos. Senti-me transportado a um mundo maravilhoso. E os dez tostões saltaram-me dos dedos. Renunciara ao carrinho de lata reluzente, la pensando na justificação a dar a meu padrinho (sabia que era feio mentir), quando me voltasse a ver a arrastar a caixinha de conserva.
Já não me lembro do que dizia o meu quadradinho de papel. Sei que o guardei num bolso dos calções, cuidadosamente, e que também sorri para o céu sombrio onde a onde esfacelado por um sol enfraquecido.
E o dia passou.
À noite desejei voltar a ver o bruxo que assim dispunha da vida dos outros, lançando na aridez das suas almas, por pequenas quantias, sementes de perpétua ventura. Queria perguntar-lhe como conseguira aquele poder. Pedir-lhe que me considerasse seu discípulo, por instantes, pois desejava transformar tudo à minha volta! Era preciso que me transmitisse os seus recursos, mesmo sem lhe dar nada em troca, pelo simples facto de lhos prolongar e engrandecer. Era necessário vencer o ódio, a pobreza, a fome, a morte. Era urgente tornar todos os homens mais felizes. Mas todos. É que foram poucos, muito poucos os que, por acaso, vieram à feira dos Quinze.
A Praça estava deserta. Já não era a hora do encantamento. As tílias contorciam-se sob as sacudidelas do vento. E os despojos da feira cirandavam numa dança de negra solidão.
Num recanto, ao fundo, projectado pela abertura de uma barraca de lona, um triângulo de luz.
Espreitei.
Lá dentro, sentado num caixote, cabeça pendida sobre o peito, impotente e imóvel, o domador do fogo, o vidente do destino dos homens, velava o cadáver do filho.
A um canto, inútil, o tambor destruído pelos pneus da camioneta que, ao fim da tarde, ocasionara o desastre.
Voltei a lembrar-me do encontro com os silfos, na manhã deslumbrante e próxima, quando as nuvens, subitamente, se transformaram em fantasmagóricas edificações. E tinha presente, sobretudo, a razão por que voltara ali!
Era indispensável continuar a crer. O homem da transfiguração adiava, decerto, a pronúncia da frase mágica: "Levanta-te e caminha!"
Espreitei de novo.
O mago soerguera a cabeça. Colada no olhar, a impotência de todo o homem. Sulcos de lágrimas estriavam de vulgaridade a pasta branca da sua máscara de dor.
O meu ídolo chorava, como qualquer mortal, ante a evidencia do irremediável.
Caminhei ao longo da Praça, desencantado e vazio. Ninguém me transmitira o poder de transformar o mundo de um momento para o outro. A natureza revestia-se de exactidão. As nuvens eram apenas as nuvens e o vento era simplesmente o vento!
Procurei depois, nos bolsos, o papelinho do meu destino feliz. Amarfanhei-o nos dedos. E o vento arrastou-o para o mistério da noite.
Este foi um dos livros que o autor me autografou em em 2008, com as palavras "pelo que nos une no amor à terra". Em mais um aniversário do seu falecimento, as suas palavras continuam vivas e cheias de magia.
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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 2/23/2014 12:47:00 da manhã
sábado, 22 de fevereiro de 2014
[À Descoberta de Vila Flor] Amendoeiras em Flor 2014
Está tudo pronto para se iniciarem amanhã as atividades do programa das Amendoeiras em Flor 2014. O programa deste ano é, de longe, um dos mais ambiciosos dos últimos anos e isso é bem visível nas estruturas que foram montadas ou adaptadas para acolherem expositores, espetáculos musicais e outras iniciativas.
A transmissão em direto pela TVI do programa Somos Portugal é sem dúvida um momento alto das atividades, mas não só. Há imensos espaços de exposição, que hoje ainda estavam vazios, mas amanhã estarão repletos do que de melhor se produz no concelho.
A diluição da feira TerraFlor em eventos que vão acontecendo ao longo do ano permite dar mais alento a estes pequenos certames que doutra forma nunca poderiam atingir a dimensão que pretendem alcançar.
Vamos esperar que o concelho consiga uma grande projeção e que os produtores e artesãos consigam boas vendas, porque a vida não está fácil.
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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 2/22/2014 12:04:00 da manhã
A transmissão em direto pela TVI do programa Somos Portugal é sem dúvida um momento alto das atividades, mas não só. Há imensos espaços de exposição, que hoje ainda estavam vazios, mas amanhã estarão repletos do que de melhor se produz no concelho.
A diluição da feira TerraFlor em eventos que vão acontecendo ao longo do ano permite dar mais alento a estes pequenos certames que doutra forma nunca poderiam atingir a dimensão que pretendem alcançar.
Vamos esperar que o concelho consiga uma grande projeção e que os produtores e artesãos consigam boas vendas, porque a vida não está fácil.
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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 2/22/2014 12:04:00 da manhã
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
[À Descoberta de Mirandela] À Descoberta de Barcel
Não há melhor maneira de conhecer o concelho do que percorrer os locais, visitar as aldeias, desbravar os caminhos, a pé. Foi isso o que aconteceu no dia 8 de fevereiro, em Barcel.
O Município organiza, com frequência, passeios pedestres por montes e vales que podem ser feitos por todos, mediante inscrição prévia. A minha vontade era participar em todos mas nem sempre é possível. Por isso foi com satisfação que me dirigi a Barcel para fazer um percurso pedestre.
A aldeia de Barcel não era totalmente desconhecida para mim. Lembro-me de, em adolescente, atravessar o rio Tua numa balsa vindo de Ribeirinha, para fazer uma partida de futebol em Barcel. Mais recentemente, há cerca de um ano, fiz um curto passeio pela aldeia e tirei algumas fotografias.
Estava previsto percorrer 9 km, sendo a caminhada de grau Difícil. Não sei se foi o grau de dificuldade ou se foi o instabilidade das condições atmosféricas, fiquei com a ideia de que o número dos participantes não chegava ao de outros eventos no género. Só contam os que aparecem.
Afinal o tempo até não esteve mau, com ameaça de chuva mas deu para fazer todo o percurso sem problemas.
A concentração aconteceu no centro da aldeia. A primeira etapa foi uma visita ao local de Longra, local onde por ventura muitos dos caminhantes nunca tinham estado.
Durante algum deslocámo-nos próximo do rio Tua para jusante mas rapidamente entrámos em terreno de forte inclinação. A paisagem não estava muito atrativa, mais pelas condições atmosféricas e pela estação do ano, porque acredito que noutra altura do ano valerá bem a pena fazer o mesmo percurso.
Não foi preciso andar muito para chegarmos ao ponto mais alto da caminhada. Percebi, mais tarde, que cortaram alguns quilómetros à caminhada prevista.
Ainda pensei que fossemos subir ao marco geodésico de Longra, mas apenas passámos perto.
Entrámos no percurso descendente já em direção a Barcel. Visitámos o cruzeiro e as alminhas, onde se voltou a concentrar todo o grupo.
Seguimos depois para a igreja matriz, onde tive muito gosto em entrar. Já tinha estado no adro, mas nunca tinha entrado.
O grupo deslocou-se depois para o salão da freguesia onde chegámos ainda bastante cedo, mas já com vontade de comer alguma coisa.
Foi servida uma canja de galinha, bastante saborosa. Havia também variadas sandes, folar de carne, bolos, fruta, sumo e vinho.
depois de aconchegado o estômago, ainda houve "coragem" para alguns passos de dança, antes do autocarro anunciar o regresso a Mirandela.
Como me desloquei em carro próprio para Barcel, aproveitei para dar mais um passeio pelas principais ruas, mas como disso no início, as condições atmosféricas não eram as melhores para fazer fotografias.
As pessoas de Barcel receberam-nos muito bem e a aldeia é bastante simpática, implantada numa zona ribeirinha muito bonita que será muito interessante continuar a visitar no futuro. Até lá, ficam algumas fotografias do dia 8.
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Publicada por Blogger às À Descoberta de Mirandela a 2/21/2014 11:19:00 da tarde
O Município organiza, com frequência, passeios pedestres por montes e vales que podem ser feitos por todos, mediante inscrição prévia. A minha vontade era participar em todos mas nem sempre é possível. Por isso foi com satisfação que me dirigi a Barcel para fazer um percurso pedestre.
A aldeia de Barcel não era totalmente desconhecida para mim. Lembro-me de, em adolescente, atravessar o rio Tua numa balsa vindo de Ribeirinha, para fazer uma partida de futebol em Barcel. Mais recentemente, há cerca de um ano, fiz um curto passeio pela aldeia e tirei algumas fotografias.
Estava previsto percorrer 9 km, sendo a caminhada de grau Difícil. Não sei se foi o grau de dificuldade ou se foi o instabilidade das condições atmosféricas, fiquei com a ideia de que o número dos participantes não chegava ao de outros eventos no género. Só contam os que aparecem.
Afinal o tempo até não esteve mau, com ameaça de chuva mas deu para fazer todo o percurso sem problemas.
A concentração aconteceu no centro da aldeia. A primeira etapa foi uma visita ao local de Longra, local onde por ventura muitos dos caminhantes nunca tinham estado.
Durante algum deslocámo-nos próximo do rio Tua para jusante mas rapidamente entrámos em terreno de forte inclinação. A paisagem não estava muito atrativa, mais pelas condições atmosféricas e pela estação do ano, porque acredito que noutra altura do ano valerá bem a pena fazer o mesmo percurso.
Não foi preciso andar muito para chegarmos ao ponto mais alto da caminhada. Percebi, mais tarde, que cortaram alguns quilómetros à caminhada prevista.
Ainda pensei que fossemos subir ao marco geodésico de Longra, mas apenas passámos perto.
Entrámos no percurso descendente já em direção a Barcel. Visitámos o cruzeiro e as alminhas, onde se voltou a concentrar todo o grupo.
Seguimos depois para a igreja matriz, onde tive muito gosto em entrar. Já tinha estado no adro, mas nunca tinha entrado.
O grupo deslocou-se depois para o salão da freguesia onde chegámos ainda bastante cedo, mas já com vontade de comer alguma coisa.
Foi servida uma canja de galinha, bastante saborosa. Havia também variadas sandes, folar de carne, bolos, fruta, sumo e vinho.
depois de aconchegado o estômago, ainda houve "coragem" para alguns passos de dança, antes do autocarro anunciar o regresso a Mirandela.
Como me desloquei em carro próprio para Barcel, aproveitei para dar mais um passeio pelas principais ruas, mas como disso no início, as condições atmosféricas não eram as melhores para fazer fotografias.
As pessoas de Barcel receberam-nos muito bem e a aldeia é bastante simpática, implantada numa zona ribeirinha muito bonita que será muito interessante continuar a visitar no futuro. Até lá, ficam algumas fotografias do dia 8.
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Publicada por Blogger às À Descoberta de Mirandela a 2/21/2014 11:19:00 da tarde
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