sexta-feira, 9 de maio de 2014

[À Descoberta de Vila Flor] e de repente é noite (XXIII)

Sei que o corredor me levava
ao nicho da imagem
que de luar cristalizado
se fizera.
Ali findavam
meus ardentes périplos
alvorejando, na glicínia,
arcos de invisíveis primaveras.
Era tudo mais distante
que as palavras.
Onde recordo incendeiam-se grutas
diante de quase nada:
um queixume num recesso de tédio;
o aroma, o rumor
de um fruto sobre a terra.

Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.

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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 5/09/2014 09:54:00 da tarde

[À Descoberta de Miranda do Douro] Senhora da Luz

 No dia 27 de Abril andava eu "perdido" perto do Palancar a fotografar uns lameiros quando me apercebi de grande movimento de automóveis na estrada. Não me pareceu normal e perguntei a um senhor que apascentava a sua burrica a razão de tal volume de transito.
- Então não sabe?! Hoje é a Luz!
 Fez-se luz na minha cabeça. A Luz significa a festa a Nossa Senhora da Luz, em Constantim, uma festa/feira das maiores que se fazem no concelho de Miranda e com características únicas, visto tratar-se de uma evento internacional.
Das vezes que fui a essa feira recordo sempre o mau tempo. É estranho mas no alto do cabeço, bem na raia, fez sempre um vento quase ciclónico e por vezes chuva. Isto apesar de a feira se realizar sempre no último domingo de Abril. Também recordo que aqui se compravam as primeiras cerejas do ano, a um preço nada de feira, mas era o preço da novidade.
Rumei a Constantim e à Senhora da Luz.
Não pretendia demorar-me e tinha algum receio se encontraria onde estacionar, mais ainda era bastante cedo e consegui levar o carro até às imediações da capela. Numa hora mais tardia isso seria impossível.
Visitei a capela. Não gostei de ver os "anexos" que foram construídos de ambos os lados. De um lado um grande coberto metálico, para abrigar os celebrantes das cerimónias religiosas. O altar já estava a mais tempo. Do outro uma construção em alumínio pareceu-me que dedicada à venda de recordações, talvez por parte da Comissão de Festas.
No interior já estavam dois andores, o de Nossa Senhora da luz e o de S. Marcos, que seriam o centro das atenções nas cerimónias religiosas.
Havia muita ente no interior da capela, curiosamente mais espanhóis do que portugueses. Todos faziam questão de tirar uma fotografia em frente ao andor de Nossa Senhora da Luz e eu limitei-me a fazer algumas de longe, para não perturbar muito.
Há algum tempo atrás a linha de fronteira marca os territórios para os feirantes espanhóis e para os portugueses. De um lado pagava-se com pesetas, do outro com escudos! Do lado português, como bons negociantes que somos, também se aceitavam pesetas, mas no lado espanhol não havia um procedimento semelhante. Hoje esta divisão dos feirantes não é tão notória e paga-se tudo em euros.
Havia de tudo à venda! reparei nas fruteiras e no bacalhau por parte dos portugueses e nas navalhas e presunto do lado espanhol. Não faltava calçado, roupa e barracas com comes e bebes. Muitos dos romeiros lavaram merenda. Preparavam-se par estender uma manta no chão comer a deliciosa merenda à sombra das muitas árvores que existem no monte em redor.
Subi ao ponto mais alto onde existe um marco geodésico. Há marcos de marcam a linha de fronteira, que se perdem na distância.É um bom miradouro este.
Não fiquei para as cerimónias religiosas. Aproveitei para seguir para Constantim onde fiz algumas fotografias pelas ruas e segui depois para o Nazo.




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Publicada por Blogger às À Descoberta de Miranda do Douro a 5/09/2014 01:30:00 da manhã

sexta-feira, 2 de maio de 2014

[À Descoberta de Vila Flor] e de repente é noite (XXII)

Todos desapareceram.
Já ninguém à porta me recebe,
neste instante de cardos.
Só um cortejo de espectros
se move, lento, nas mais densas trevas.
O olhar mudo das paredes.
Sua estranha forma de gritar o silêncio.
A cal esboroada ainda com vestígios
de tantos olhares mortos.
Minha mágoa nos ombros,
porque pressinto neles um vaguear de mãos
encaminhando-me seguramente
através do velho casarão.
Quero culpar alguém deste vazio,
medir minha revolta com qualquer ira divina,
mas só o vento me responde outras perguntas
que mais queimam e ferem,
de uma distância de nuvens.

Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Vila Flor

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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 5/02/2014 09:40:00 da tarde

[À Descoberta de Miranda do Douro] Cores da Primavera (01)

 Algumas pinceladas de cor, colhidas no Parque Urbano do Rio Fresno nos passeios matinais.



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Publicada por Blogger às À Descoberta de Miranda do Douro a 5/02/2014 12:41:00 da manhã

[À Descoberta de Valpaços] Argeriz

Vista parcial da aldeia de Argeriz, no concelho de Valpaços.

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Publicada por Blogger às À Descoberta de Valpaços a 5/01/2014 04:34:00 da tarde

[À Descoberta de Vila Flor] Via crucis (02)

Segundo conjunto de fotografias que ilustram a Via Sacra que teve lugar no dia 13 de abril em Vila Flor.






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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 5/02/2014 12:22:00 da manhã

quinta-feira, 1 de maio de 2014

[À Descoberta de Alfândega da Fé] Lugares de Memória

ACâmara Municipal de Alfândega da Fé organizou no dia 16 de abril uma visita pela vila integrada no dia Dia Internacional dos Monumentos e Sítios. Sempre me pareceu que este dia comemorativo não era alvo da devida atenção por parte das autarquias mais próximas de mim, por isso, fiquei satisfeito pela iniciativa e compareci em Alfândega da Fé, com a família, para dedicarmos um dia À Descoberta de Alfândega da Fé.
A primeira ideia com que fiquei, quando as pessoas se reuniram na sala de exposições da Casa da Cultura José Rodrigues foi que a organização ficou surpreendida com a adesão. Mais de meia centena de pessoas, de todas as idades,compareceram para fazerem um percurso pelos monumentos e pontos emblemáticos da sede de concelho.
Para guiar a visita a autarquia tinha o historiador Paulo Costa. A fazer as "honras da casa" esta a Senhora Presidente da Câmara que mostrou agrado por tamanha adesão e também mostrou substanciais conhecimentos sobre a história da vila.
Os monumentos carregados de história, em Alfândega da Fé, não são muitos, mas os edifícios, as ruas, fontes, as capelas e cruzeiros, são alguns elementos que nos podem fazer viajar no tempo, fazer uma espécie de viagem no tempo, para começarmos a olhar para eles com outros olhos. Além desse passado que todos as localidades têm, sejam elas aldeias, vilas ou cidades, Alfândega tem também um conjunto de obras mais recentes, como painéis de azulejos, esculturas em granito, ou mesmo monumentos como a própria Casa da Cultura, que podem proporcionar um excelente passeio cultural pela vila.
A minha curiosidade não ficou completamente satisfeita. Estava à espera de ouvir algo interessante sobre cada um dos sítios visitados, algo que me levasse a fazer a tal viagem ao passado. Podiam ser dados históricos, podiam ser lendas ou tradições, podiam ser curiosidades arquitetónicas ou simples chamadas de atenção para alguns pormenores, isso aconteceu, em alguns locais, mas estava à espera de mais. Possivelmente muita coisa não foi dita porque a maioria das pessoas era de facto da vila e já devem saber tudo (ou talvez não!).
Foi uma boa oportunidade para visitar a capela de S. Sebastião e a capela da Misericórdia, mas outras podiam ter sido visitadas. Uma ocasião desta deveria ter levado a uma preparação mais cuidada para que os espaços estivessem abertos e possíveis de visitar (por exemplo as capelas da Família dos Ferreiras, do Espírito Santo ou mesmo a Torre do Relógio.
A iniciativa foi muito positiva e estou certo que este evento se repetirá nos próximos anos talvez de uma forma mais proveitosa e interessante.
Depois de um saboroso almoço num restaurante da vila (esta parte já não estava no programa no evento Lugares de Memória), rumámos aos Cerejais. O dia estava fantástico para passear e havia que aproveitá-lo.



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Publicada por Blogger às À Descoberta de Alfândega da Fé a 5/01/2014 01:48:00 da tarde

sábado, 26 de abril de 2014

[À Descoberta de Vila Flor] e de repente é noite (XXI)

Havia um poço
de água muito fria
e seus perenes avisos
de obscuridade.
Havia uma bica de bronze
onde pousava a boca
sem ter sede,
só por nela teres bebido.
O dia anunciado
nas fendas da janela.
Fragrâncias matutinas
no voo dos primeiros pombos
a branquear o dia.
E um súbito encantamento
em nossos peitos:
um vulcão de sonhos
mais alto que a manhã.

Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Albufeira do Peneireiro

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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 4/26/2014 09:35:00 da tarde

terça-feira, 22 de abril de 2014

[À Descoberta de Vila Flor] e de repente é noite (XIX)

Em Maio os campos acendiam-se
e o céu, límpido, era mais alto e lento.
a horizonte tornava-se um veleiro
afastando-se num tremular de lenço
em que não cabia nenhuma dor de exílio.
Pela tarde vinham as trovoadas,
seu peito metálico oprimindo
a nossa vigília de medo,
por não reconhecermos a sua voz.
Pouco ou nada sabíamos
do malogro das esperanças
pelos outros sonhadas para nós,
mãos pousadas no vapor das vidraças,
como no extremo de uma comoção enternecida.
E o que se erguia dos novelos de trovões
falava-nos vagamente de uma história antiga
em nada semelhante à vida.

Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Pôr do sol - Vila Flor

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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 4/22/2014 09:29:00 da tarde

sábado, 19 de abril de 2014

[À Descoberta de Vila Flor] e de repente é noite (XVIII)

Saber como são breves
as manhãs sem sombras.
Ir do latejo da luz
ao ondear da seara
desenhando cotovias
com o ritmo dos ventos.
Dar uma cor a este canto
de distraída cigarra:
talvez um Junho de cerejas
a escalar o branco do linho.
E um divino poder nos conceda
que aprendamos a arte do sol.

Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.



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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 4/19/2014 09:25:00 da tarde

quarta-feira, 16 de abril de 2014

[À Descoberta de Vila Flor] e de repente é noite (XV)

A impetuosa deambulação do álcool da escrita atravessando
este apego às pausas nocturnas.
Fumegam as montanhas de tanto tédio expelido
de seus profundos alvéolos
preenchidos com minha ansiedade de toupeira
ante os segredos últimos da terra.
É de noite que as aranhas dos sonhos
segregam mais translúcidas teias
e dúctil é o âmbar das eiras sob as escamas fosforescentes
do luar de Agosto.
Nos solares abandonados, meus herméticos olhos
só repousam no escuro dos corredores
como se descobrissem, de repente,
a substância de que foram feitos.

Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Pôr do sol - Candoso.

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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 4/16/2014 09:19:00 da tarde

terça-feira, 15 de abril de 2014

[À Descoberta de Valpaços] XVI Feira do Folar

 Os políticos gostam sempre de aparecer nas feiras e eu, quer queira, quer não, estou quase a seguir-lhe as pisadas! No ano passado visitei Valpaços por altura da Feira do Folar e este ano repeti a dose. Não é só pelo folar que vou a Valpaços, mas a feira é uma excelente montra do concelho, no que toca a gastronomia e não só ... e é uma ótima "desculpa" para mais uma viagem.
Aproveitei a manhã de Sábado para fazer uma visita demorada à Feira, constou-me que de tarde não seria "recomendável" circular por lá.
O folar é o "rei" da festa e merece bem o destaque. O processo de certificação está à beira de ser concluído o que pode vir a dar ainda mais destaque a esta iguaria. A certificação obriga também a uma maior uniformização, mas quem circula pelos muitos expositores e prova os folares consegue aperceber-se que há muita variedade. Os produtos caseiros, de origem própria, são muitas vezes o fator que faz a diferença, mas a experiência de quem os faz, o tipo de forno, a própria temperatura do forno ... são algumas das condicionantes que  podem fazer um bom produto.
Havia muitos e bons folares, diferentes nas formas e nas cores, mas todos apetitosos recheados de boas cartes e temperados com um bom azeite.
O número de expositores aumentou e isso esteve visível numa tenda que foi acrescentada, para aumentar o espaço.
 Havia também bolos podres e muitos económicos. É bom ver que há bastantes pessoas a usarem a amêndoa e a castanha, nos seus bolos, inclusive no folar!
Também o fumeiro tem bastante peso nos produtos apresentados na feira, mas há um pouco de tudo: frutos secos, azeitonas, queijos, ... e o vinho, que nunca tem da minha parte a atenção que merece. É que Valpaços também tem excelentes vinhos, prova disso é o número crescente de medalhas que os vinhos do concelho têm conquistado.
Comprei alguns folares, um livro sobre o concelho de Valpaços e desloquei-me para a zona da restauração para almoçar. Preparava-se o cenário para o programa da tarde da RTP1 e o ambiente não tinha calma suficiente para a degustação. Dei um passeio pelo centro da cidade e aproveitei para almoçar fora da feira.

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Publicada por Blogger às À Descoberta de Valpaços a 4/15/2014 03:52:00 da tarde