quinta-feira, 24 de julho de 2014

[À Descoberta de Mogadouro] Festival Terra Transmontana 1/3

Prestes a entrar de férias, fui surpreendido pela publicidade ao Festival Terra Transmontana! A designação ia chamar a minha atenção onde quer que a ouvisse, mas quando soube que seria em Mogadouro, aumentou o interesse. Ter um festival "em casa", não é de desperdiçar.
Reservei a sexta à tarde, o sábado e o domingo para não perder nada do grande acontecimento. O que me atraiu em primeiro lugar foi a música. Conheço os Dazkarieh e os Uxu Kalhus já há algum tempo e o folk com com cruzamento de sons e instrumentos do mundo fazem parte dos meus gostos musicais. Do grupo Albaluna não conhecia anda e tratei de conhecer mal conheci o cartaz. Os restantes grupos, todos com uma forte ligação à sonoridade do Planalto Mirandês, nem precisava de me preocupar.
 Não cheguei a tempo da cerimónia oficial de abertura, mas devo ter faltado por pouco. A comunicação social ainda se encontrava no local e as pessoas estavam a dar as primeiras voltas a fazer o reconhecimento do terreno.

Começando pela Zona 2 - Feira das Tradições (Praça da Misericórdia), aqui se concentravam os artesãos e expositores de produtos da terra. O espaço é amplo, importante e estava repleto de coisas interessantes. Na Zona 1 - Praça Folk e Tabernas (Largo do Castelo) estava o palco principal e as tabernas.
Não haveria lugar para sede nos dias seguintes (isto sem contar com as nuvens negras que se viam no horizonte). No palco o grupo Albaluna fazia a adaptação ao palco e fiquei logo com a sensação que não ia ficar desiludido.  A chamada Zona 3 - tabernas em casas particulares não estava imediatamente visível, vim a conhece-la mais de perto nos dias seguintes.
Não sei onde se enquadrava nesta divisão por zonas o espaço em redor da igreja matriz onde se montou um verdadeiro acampamento medieval, com amostra das profissões e modo de vida dessa época, a exibição de aves de cetraria e o burro mirandês.
Também ficou por apresentar a grande tenda Taberna do S'Cacha (restaurante), onde não faltaram as iguarias da gastronomia transmontana, como os milhos, sopas da cegada, salada de bacalhau, arroz doce ou a famosa posta.
Feito o reconhecimento dos espaços e comprado o copo, as tascas estavam proibidas de venderem bebidas em copos plásticos, foi o momento de aconchegar o estômago para a noite musical que se adivinhava fria, mas não sem antes assistir à actuação da Banda Filarmónica A.H. Bombeiros Voluntários de Mogadouro e um largado grupo de gaiteiros ansiosos por dar ao festival toda a graça e ritmo que a sua música proporciona.
 A noite começou com o grupo Las Çarandas, jovens, bonitas, com muito musicalidade e cumplicidade com o público, que mostraram conhecer bem. Apesar do grupo ser da região nunca o tinha visto ao vivo. Gostei bastante. O seu reportório é bastante variado e envolvente não caindo nos erros de alguns grupos de gaiteiros, sempre com o mesmo som e o mesmo ritmo. foi uma alegria, com dança e tudo!
O cabeça de cartaz da noite Albaluna foi a revelação do festival para mim. Fiquei com pena do pouco público que havia, porque este grupo merecia ter uma melhor recepção. Fiquei rendido ao grupo, que como disse não conhecia, mas que vou passar a acompanhar. A sua actuação pereceu-me ainda mais ritmada e melodiosa do que a dos vídeos a que tinha assistido no youtube. Muita energia, muita magia, um bom jogo de luzes, um verdadeiro espectáculo. Foi, sem dúvida, o grupo que mais gostei no festival.
Continua:
Festival Terra Transmontana 2/3
Festival Terra Transmontana 3/3

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Publicada por Blogger às À Descoberta de Mogadouro a 7/24/2014 08:31:00 da tarde

[À Descoberta de Mogadouro] Festival Terra Transmontana 1/3

Prestes a entrar de férias, fui surpreendido pela publicidade ao Festival Terra Transmontana! A designação ia chamar a minha atenção onde quer que a ouvisse, mas quando soube que seria em Mogadouro, aumentou o interesse. Ter um festival "em casa", não é de desperdiçar.
Reservei a sexta à tarde, o sábado e o domingo para não perder nada do grande acontecimento. O que me atraiu em primeiro lugar foi a música. Conheço os Dazkarieh e os Uxu Kalhus já há algum tempo e o folk com com cruzamento de sons e instrumentos do mundo fazem parte dos meus gostos musicais. Do grupo Albaluna não conhecia anda e tratei de conhecer mal conheci o cartaz. Os restantes grupos, todos com uma forte ligação à sonoridade do Planalto Mirandês, nem precisava de me preocupar.
 Não cheguei a tempo da cerimónia oficial de abertura, mas devo ter faltado por pouco. A comunicação social ainda se encontrava no local e as pessoas estavam a dar as primeiras voltas a fazer o reconhecimento do terreno.

Começando pela Zona 2 - Feira das Tradições (Praça da Misericórdia), aqui se concentravam os artesãos e expositores de produtos da terra. O espaço é amplo, importante e estava repleto de coisas interessantes. Na Zona 1 - Praça Folk e Tabernas (Largo do Castelo) estava o palco principal e as tabernas.
Não haveria lugar para sede nos dias seguintes (isto sem contar com as nuvens negras que se viam no horizonte). No palco o grupo Albaluna fazia a adaptação ao palco e fiquei logo com a sensação que não ia ficar desiludido.  A chamada Zona 3 - tabernas em casas particulares não estava imediatamente visível, vim a conhece-la mais de perto nos dias seguintes.
Não sei onde se enquadrava nesta divisão por zonas o espaço em redor da igreja matriz onde se montou um verdadeiro acampamento medieval, com amostra das profissões e modo de vida dessa época, a exibição de aves de cetraria e o burro mirandês.
Também ficou por apresentar a grande tenda Taberna do S'Cacha (restaurante), onde não faltaram as iguarias da gastronomia transmontana, como os milhos, sopas da cegada, salada de bacalhau, arroz doce ou a famosa posta.
Feito o reconhecimento dos espaços e comprado o copo, as tascas estavam proibidas de venderem bebidas em copos plásticos, foi o momento de aconchegar o estômago para a noite musical que se adivinhava fria, mas não sem antes assistir à actuação da Banda Filarmónica A.H. Bombeiros Voluntários de Mogadouro e um largado grupo de gaiteiros ansiosos por dar ao festival toda a graça e ritmo que a sua música proporciona.
 A noite começou com o grupo Las Çarandas, jovens, bonitas, com muito musicalidade e cumplicidade com o público, que mostraram conhecer bem. Apesar do grupo ser da região nunca o tinha visto ao vivo. Gostei bastante. O seu reportório é bastante variado e envolvente não caindo nos erros de alguns grupos de gaiteiros, sempre com o mesmo som e o mesmo ritmo. foi uma alegria, com dança e tudo!
O cabeça de cartaz da noite Albaluna foi a revelação do festival para mim. Fiquei com pena do pouco público que havia, porque este grupo merecia ter uma melhor recepção. Fiquei rendido ao grupo, que como disse não conhecia, mas que vou passar a acompanhar. A sua actuação pereceu-me ainda mais ritmada e melodiosa do que a dos vídeos a que tinha assistido no youtube. Muita energia, muita magia, um bom jogo de luzes, um verdadeiro espectáculo. Foi, sem dúvida, o grupo que mais gostei no festival.
Continua:
Festival Terra Transmontana 2/3
Festival Terra Transmontana 3/3

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Publicada por Blogger às À Descoberta de Mogadouro a 7/24/2014 08:30:00 da tarde

segunda-feira, 14 de julho de 2014

[À Descoberta de Carrazeda de Ansiães] Passeio Pedestre - Parambos

 O IV Passeio Pedestre previsto para o dia 6 de julho prometia uma boa caminhada, na companhia de muitos amigos, com as bonitas paisagens como já estamos habituados a admirar em Parambos, qualquer que seja o percurso escolhido.
Por isso, bem cedo, "rumei" até Parambos com muito entusiasmo, até porque tenho andado um pouco arredado dos caminhos de Ansiães.
Aprovei o facto de chegar cedo para "apalpar" o terreno, mas o que se via em direcção a Castanheiro e ao rio Tua não era nada prometedor em termos climatéricos, mas, tal como no dia anterior que amanheceu húmido e se compôs ao longo da manhã, o mesmo poderia acontecer, essa era pelo menos a esperança.
Perto das 8 e meia da manhã chegou o autocarro com os participantes vindos de Carrazeda de Ansiães. O número de presenças evidenciou, ou o medo ao calor do verão, ou o medo à chuva que ameaçava cair a qualquer instante.
 O pequeno almoço já estava pronto na antiga escola primária actual Centro de Convívio "A Nossa Escola". A mesa estava farta e, como já e hábito, o pequeno almoço foi um momento de convívio.
Infelizmente o tempo não melhorou e as primeiras gotas de chuva começaram a cair mal demos os primeiros passos!
Uma volta pela Rua da Figueirinha, com passagem junto ao cemitério, trouxe-nos ao centro da aldeia, numa altura em que a chuva era intensa. Ninguém acreditou que continuaria assim e seguimos pela Rua da Fonte Velha até à estrada.
Não chovia muito e assim continuou até que chegámos à Quinta da Borraceira. O problema é que, mesmo com pouca chuva, optei por não tirar fotografias, lutando  para que a água não estragasse o material fotográfico. Gosto de caminhar, mas também gosto de registar os locais por onde passo e não me foi possível.
Depois de passarmos juntos à quinta, regressámos à estrada nacional N314-1, onde nos aguardava o veículo dos Bombeiros e a equipa de apoio. Chovia com alguma intensidade e alguns dos participantes optaram por terminar aí a sua caminhada, outros, mais afoitos, teimaram em contrariar o mau tempo e seguir para o coração da serra, quase até à aldeia de Amedo.
 Esta parte do percurso, sob uma mata de castanho, foi sem dúvida a mais bonita, mas também a mais difícil. Independentemente da chuva que não parecia querer ir embora, o declive era acentuado e o suor misturou-se com a água da chuva.
Próximo de Amedo já conhecia o caminho, quer de outras caminhadas, quer de alguns passeios que já por ali fiz sozinho. Além da verdura da cobertura da serra, com uma exuberante capa de folhas, debaixo das árvores também havia uma infinidade de vida, com muito verde de musgo e algumas flores que ainda resistem.
Onde a cobertura arbórea o permitia olhar para em direcção a Areias, Pombal e Paradela deixava antever belas paisagens, não fosse a chata da chuva que teimava em cair,
Entretidos com a conversa nem demos conta do caminho percorrido, mas chegámos à Rua da Escola, em Misquel. Já não se avistavam muitos caminheiros e num grupo de 5 fizemos o restante percurso até Parambos.
Enquanto esperávamos que o almoço fosse ultimado, a chuva continuou a cair, mas já pouco nos afectou. Aproveitámos o tempo para uma vista à história do Sporting Clube de Parambos, através das fotografias e outras recordações expostas no local.
Com o almoço servido e no calor do convívio, já ninguém mais se lembrou da chuva. O arroz estava uma delícia, o vinho era bom e a companhia ainda melhor. Por fim chegou a fruta e ainda houve tempo para um café no Clube.
Quando fazíamos as despedidas eis que o sol decidiu aparecer, como que a zombar de nós! Independentemente dos contratempos, foi uma boa manhã de passeio e convívio. A comissão de Festas de S. Bartolomeu e a Junta de Freguesia estão de parabéns. Também o Café Planalto, os Bombeiros Voluntários e a Câmara Municipal (que cedeu o transporte) foram imprescindíveis para esta molhada, mas alegre caminhada.

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Publicada por Blogger às À Descoberta de Carrazeda de Ansiães a 7/14/2014 01:24:00 da manhã

quinta-feira, 3 de julho de 2014

[A Linha é Tua] Geocaching - a[LINHA]s?!? Também é TUA!

Já há bastante tempo que não reporto uma caminhada pela Linha do Tua, mas isso não significa que elas não tenham acontecido. Apenas me tornei mais preguiçoso na escrita e deixei-me seduzir pela popularidade e facilidade do Facebook. A Linha é Tua também já está presente nesta plataforma. Faça Gosto na página.
Continua  a haver muita gente com vontade de percorrer a Linha do Tua, por isso não admira que no mês de março se tenha juntado um grupo de mais de 80 pessoas para fazerem o percurso entre Brunheda e Fiolhal, conhecendo a linha e procurando as misteriosas "caixinhas" que fazem parte do Geocaching.
Aderi a este passatempo/desporto há relativamente pouco tempo, mas, tratando-se de uma aventura na linha do Tua não podia faltar.
A organização do evento decorreu no Facebook e na plataforma oficial de Geocaching conseguindo juntar pessoas vindas dos mais dispersos pontos do país. Nós, os transmontanos, estávamos em minoria!
A concentração aconteceu em Fiolhal, mas eu desloquei-me directamente para Brunheda. Quando lá cheguei, pouco depois das sete da manhã, já havia pessoas junto à estação, esperando o resto do grupo para dar início à caminhada. Esse início ainda demorou bastante. Os participantes foram transportados de autocarro de Fiolhal a Brunheda. O transporte foi feito com um autocarro do município de Carrazeda de Ansiães, que efectuou duas viagens, obrigando a algum tempo de espera.
Junto à estação de Brunheda há duas caches, que foram feitas nesse intervalo de tempo. Foram-se cumprimentando os amigos, registando os códigos dos Travel Bug e Geocoins. Este desporto tem características muito próprias, uma filosofia muito interessante e algumas práticas com as quais não concordo, mas a verdade é que há cada vez mais praticantes e proporciona momentos e viagens verdadeiramente interessantes.
Só perto das 10:30 o grupo estava preparado para partir. Os representantes da autarquia de Carrazeda agradeceram a visita ao concelho (mas não me fizeram esquecer as suas responsabilidades no encerramento da Linha do Tua), distribuíram alguns panfletos e uma maçã a cada participante.
A caminhada era longa, com um final bastante difícil que é a distância da Linha à aldeia de Fiolhal. Ninguém tinha pressa e diria mesmo que alguns não tinham mesmo nenhuma pressa, porque partiram muito devagar como se não houvesse à volta de 20 km para percorrer.
Não me preocupei em procurar as caixinhas, havia pessoas muito mais entusiastas e experientes do que eu. Por isso segui também ao meu ritmo desfrutando da magnifica paisagem que já conhecia mas que me parece mais bonita de cada vez que a percorro.
Muitos dos participantes no evento estavam lá pelo jogo, mas não deixavam de lamentar a perda que é a submersão da linha e a destruição da paisagem e dos ecossistemas que se desenvolveram durante milénios no vale do Tua.
A pausa para comer o almoço volante aconteceu no apeadeiro do Castanheiro. Ainda pensei que alguém tivesse vontade de conhecer a pequena praia de areia branca, mas não. Retemperadas as forças voltámos à linha para fazer o resto da caminhada.
Desde Brunheda ao Tua há mais de dezena e meia de caches, isto sem contar as colocadas em redor de Fiolhal e do Tua. A crescerem ao ritmo que têm crescido nos últimos tempo corre-se o risco de haver uma cache por cada curva de estrada, o que me parece exagerado, mas cada um pensa à sua maneira.
A caminhada continuou até chegar-mos ao "final" da Linha, exactamente ao quilómetro 3. Neste ponto foi necessário subir até Fiolhal, depois de bastante cansaço e algum calor a chatear.
Nesta zona avistam-se as obras da barragem, de que prefiro nem falar.
Por fim, todos os participantes se concentraram em Fiolhal. Notava-se algum cansaço, mas adoraram o passeio (e sei que alguns já voltaram às caminhas na Linha do Tua depois dessa data).
Entregámos o nosso "bilhete", trocámos alguns códigos necessários para os registos na plataforma do Geocaching e cada um seguiu o seu caminho.
Não satisfeitos com as "cachadas" feitas, um grupo de aventureiros ainda decidiu descer à estação do Tua, fazer alguns quilómetros em direcção a S. Mamede de Ribatua e regressar ao concelho de Carrazeda de Ansiães, fazendo todas as caches até Castanheiro, onde a noite nos surpreendeu.
Ao todo foram quase 30 "caixinhas" as visitadas, com possibilidade de logar ainda mais algumas. Muitos Trackables, vistos ou trocados, dos mais simples aos mais estranhos.
A Linha do Tua é visitada por um número considerável de praticantes de Geocaching, mas poucas vezes deve ter sido percorrida por um grupo tão grande.
Tudo isto só foi possível com o apoio da Câmara Municipal de Carrazeda de Ansiães e, sobretudo, ao espírito aventureiro do geocacher jorge_53 que conseguiu reunir as pessoas e montar a logística necessária para o evento. A ele o meu muito obrigado.





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Publicada por Blogger às A Linha é Tua a 7/03/2014 01:17:00 da manhã

segunda-feira, 30 de junho de 2014

[À Descoberta de Miranda do Douro] Galandum Galundaina - L cura stá malo

L Cura stá malo, l Cura stá malo
Malico an sue cama
Chiribi chiribaina, malico an sue cama

Ne l meio de la nuite, ne l meio de la nuite
Chamou la criada
Chiribi chiribaina, chamou la criada

Que ten senhor Cura, que ten senhor Cura
Que tanto me chama
Chiribi chiribaina, que tanto me chama

Trai-me l chocolate, trai-me
Cun pouquito d'auga
Chiribi chiribaina, cun pouquito d'auga

La auga stá fonda, la auga stá fonda
Nun le chega la bara
Chiribi chiribaina, nun le chega la bara

Tengo eiqui you ua, mais que meia bara
Que le chega a l'auga
Chiribi chiribaina, que le chega l'auga

Als nuobe meses, i a ls nuobe meses
Pariu la criada
Chiribi chiribaina, pariu la criada
Chiribi chiribaina, chiribiribaina

Pariu un curica, pariu un curica
Cun gorra i sotaina
Chiribi chiribaina, cun gorra i sotaina

"Bóta-lo al spício!!"
Botar-lo ne l spício, botar-lo ne l spício
Nun me dá la gana
Chiribi chiribaina, nun me dá la gana

Tengo eiqui dues tetas, tento eiqui dues tetas
Cumo dues maçanas
Chiribi chiribaina, cumo dues maçanas

Que dan tanto lheite, que dan tanto lheite
cumo duzientas cabras
Chiribi chiribaina, cumo duzientas cabras



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Publicada por Blogger às À Descoberta de Miranda do Douro a 6/30/2014 03:38:00 da tarde

terça-feira, 24 de junho de 2014

[À Descoberta de Vila Flor] As lendas de Orelhão - Cabral Adão

"Antes do jantar, eu, o Padre Francisco Reis e o Dr. Armando Guedes (que três!) contávamos coisas, estendidos pelas escadas do patim deste ilustre médico dos Passos.
O tempo estava incerto; os desejos de todo um clamor rural pareciam ter eco nos arraiais de São Pedro, pois grossos carriIhões de nuvens baças escorriam de Noroeste, esgaçando-se nos picos de Padrela e pelos montes longínquos.
Nós estávamos à vontade, para ali recostados, fruindo uns momentos felizes da mais íntima camaradagem, eu talvez um pouco mais observador dos pequenos nadas da aldeia, que para os outros dois eram banalidades, apagadas no contacto permanente.
Era o filhito do doutor - o galo da família, como o classificou um criado, em vista de ter aparecido depois de sete irmãs, todas vivinhas e graciosas, pela bondade de Deus - que subia e descia as grades da furgoneta, parada no curral, em riscos de cair e desnocar algum osso, folestrias a que o pai provia de vez em quando, com uma das tiradas do seu glossário de transmontano rijo e expressivo: - «Vai aço!!!». Era um cachorro a entrar de roldão pelo portal adentro e a afugentar as pitas, que se esgueiravam espavoridas para os recantos das dependências, cacarejando os alarmes do costume. Era uma criadita que ía à loja buscar cebolas ou batatas ou azeitonas, morena, vivaça, jeitosa. Era o chiar dos carros de bois pelas canelhas da aldeia. e as vozes dos lavradores a acompanhar as aguilhoadas nos quartos dos animais «Ei!».

Mas a conversa animava e eu, acordado desta contemplação bucólica, espevitava-a como podia.
O Padre Francisco (Francisco Abbas, à latina) falou da sua obra. Sente-se ali um sacerdote. Ali, é no Franco, a dez quilómetros a montante de Passos, onde o forasteiro pode ver o renascimento do Samaritano.
Não estou para mirar muitos outros eclesiásticos por lentes de miopia, o que teria de acontecer se lhes quisesse conhecer as «obras», numa sabatina com este. Basta-me bem examinar esta, no seu valor absoluto, para me sentir feliz e encantado.
Há, então, no Franco, o Lar da Paróquia erigido pelo povo, sim, mas com o sopro divino que do Padre Francisco dimana. Chegou, viu e venceu a batalha da freguesia que o respectivo Prelado pôs à sua guarda. Não há ali doirados nem espaventos de culto. Há caridade, há miolo social que ele foi buscar aos jpães do Evangelho. O Padre Américo se lesse isto havia de sorrir, com certeza! 
No lar da Paróquia doutrina-se, educa-se e dispensam-se socorros aos doentes. O homem-padre construiu um belo edifício de raiz, e esforça-se para o manter de pé.
Note-se que não o faz para subir a cónego, nem para granjear importância, nem para ser valido de importantes. Fê-lo porque tem dotes sacros e quer franqueá-los aos seus irmãos em Cristo. Fá-lo porque assim entende o seu dever. Aí está: simples e claro!
A mim encanta-me duplamente este rapaz, porque foi nascido na mesma terra que me viu nascer. E passo adiante, pois o Sol a pino deslumbra muito...
O jantar estava prestes a ser servido, a avaliar pelo movimento das criadinhas com avental gomado, de laço atrás. Descrever aquele frondoso ágape, especialmente preparado para honrar o colega dos bancos da Faculdade, que o Dr. Armando Guedes não via há talvez vinte anos, seria fastidioso e atentatório do apetite de quem me ler. Diga-se apenas que na véspera, o bondoso médico e lavrador se metera na furgoneta e fora ao Porto fazer as compras para o jantar especial. Trezentos e quarenta quilómetros, ida e volta! Somos assim, os transmontanos: montanhas de dedicação.
Aproveitando uns restos de tempo, já à tardinha, com o manto de nuvens a encapelar e a lançar um pasmo de sombras nos relevas montanhosos em derredor, entretive o cavaco com a Lenda dos Corações, respeitante à região em que estávamos, e que mal delineei com citações imprecisas, mas certa na essência da tradição.
Quem se delicia a subir ao Cabeça de Nossa Senhora da Assunção, de Vilas Boas e Vila Flor, voltando-se a Oeste, vê, entre os mamelões da serra fronteira, do Faro, na última faixa do horizonte, uma vertente de mato escuro, com dois corações a par, admiravelmente desenhados. Chamam-lhe a Serra dos Corações e a lenda explica a curiosidade desta forma:

Antigamente (tempo dos godos? tempo dos árabes?) a terra mais importante da região era Orelhão, que hoje se vê logo abaixo e se chama Lamas de Orelhão. Orelhão tinha Rei e o Rei uma filha que era a personificação duma gota de orvalho caída da mais bela bonina criada nas alfombras de por ali. Tinha-a, o pai, reservado para um alto enlace, com casa nobre doutro reino peninsular. Mas a aspiração da princesinha era outra, residia na esbelteza dum simples pajem, que a requestava às escondidas, por noites de luar. 

Ora o Rei, sabendo-o, quis cortar pela raiz essa paixão impetuosa que requeimava os peitos dos dois namorados, pensando exterminar o pajem de qualquer modo. Mas uma aia fidelíssima avisou a princesinha do intento do seu Real Senhor. Então, os ardentes apaixonados combinaram a fuga e internaram-se na floresta da serra, nessa altura muito espessa e muito poética.
Dado o alarme no palácio, ordenou o Rei aos seus homens de frechas e alabardas, que batessem montes e vales até lhe trazerem os foragidos, vivos ou mortos.
Tudo correram os homens de armas, mas apenas puderam apurar que a princesa e o pajem estavam refugiados na floresta do monte, onde seria impossível encontrá-los, dado o labirinto de ramos e frondes que a mata espessa ocultava no seio.
O Rei não hesitou na solução máxima e infalível: « - Pois deitai fogo à floresta e não retireis enquanto virdes árvores de pé!».
Foi um incêndio pavoroso, que durou semanas. Os dois amantes lá ficaram, desfeitos em cinza. Mas os seus corações recebeu-os a terra, e estão gravados com notável perfeição, para todo o sempre, na serra escalvada e triste.
O «Jornal de Notícias», pela pena de não sei que articulista, narrou esta lenda há muitos anos, que me lembra muito bem de a ter lido.
Enquanto as sopas arrefeciam e espargiam pelo ar um aroma de apetites, o Padre Francisco aproveitou os últimos instantes daquela cavaqueira, nas escadas do patim do Dr. Guedes, para me contar outra lenda, que eu reproduzo mais ou menos fielmente. 

Havia uma menina, que costumava pastorear ovelhas na companhia dum seu irmão, de nome Leonardo. Comba se chamava ela e era bela como uma alvorada de Maio, esbelta como uma andorinha, boa como um cristão antigo.
Um dia, o Rei de Orelhão, cavalgando pelo monte, encontrou a pastora; apeou-se da montada, assentou-se numa pedra e pediu-lhe que o catasse. O monarca reclinou a cabeça no seio da menina e sentiu uma tal blandícia que adormeceu, enquanto ela lhe ia separando os cabelos para a operação requerida.
Poucos momentos passados, a inocente pastorinha teve um palpite nebuloso e, desviando a cabeça do cavaleiro para o lado, desembaraçou-se dele e deitou a fugir.
O Rei tivera um sonho de volúpia, em que a figurinha da pequena serrana era a vítima do impulso escandaloso que lhe alvoroçava o sangue. Então, acordou. Quando se viu só, rangeu os dentes, montou a cavalo e partiu à desfilada, em busca da menina. Prestes a alcançá-la, eis que um grande fraguedo a que Comba se encostara, se fendeu para lhe dar passagem. O cavalo, num galão, ia avançar pela abertura, mas o rochedo fechou-se e as patas do cavalo real sulcaram a pedra e lá estão ainda as marcas das ferraduras, patentes a quem as quiser ver.
O Rei de Orelhão, furioso, viu o irmão de Comba ao longe e galopou como uma flecha, para o alcançar. Usando a lança, num rompante dementado, golpeou-lhe o ventre, pondo-lhe as tripas ao sol. Leonardo jazia como morto, sobre umas carrasqueiras secas. Reunindo as forças que lhe restavam, arrastou-se até um poço que havia próximo e lavou as vísceras na água pura que dele brotava. Por favor da Providência Divina, operou-se a cura sobrenatural e Leonardo pôde levantar-se e correr em socorro da irmã.
Não desanimando, o crapuloso Rei, dos seus intentos, voltou mais tarde ao monte, acompanhado de alguns soldados, para o ajudarem na batida. Mal a pastora o divisou ao longe, deixou o rebanho e correu; correu espavorida, implorando a protecção divina. O Rei, lançando-se-lhe na peugada, instigou os soldados a alcançá-la, gritando-lhes do alto do ginete: «Agarrai-a! Agarrai-a!» Mas a pastorinha tinha asas nos pés e não mais foi apanhada.

Termina a lenda dizendo que Comba morreu em Coimbra, sendo mais tarde beatificada - Santa Comba, bem como seu irmão - São Leonardo.
Ainda hoje se pode ver o poço em que São Leonardo lavou as vísceras esventradas. Ao monte, chama-se de Santa Comba: e a colina em que os soldados perseguiram a pastora é conhecida por - A GARRAIA, topónimo derivado do grito real.
A noite viera chegando, em pés de lã, e nós subimos para a sala, onde iniciámos a refrega, que havia de ficar memorável na história da hospitalidade transmontana."

Texto retirado livro O Homem da Terra, da autoria de Luís Cabral Adão, publicado em 1986.

Cabral Adão - Síntese Biográfica



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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 6/24/2014 04:13:00 da tarde

quinta-feira, 12 de junho de 2014

[À Descoberta de Vila Flor] e de repente é noite (XXXV)

Segredos de obscuros cristais
que as traves dos anos preservaram.
Voracidade das ondas nos bolsos
para, às braçadas,
nos acercarmos da alma.
A aparição de um precário abrigo
no aroma ressuscitando as tílias
na praça junto à escola
de giz e ardósia e fingidas palavras
por tudo mostrarem ocultando tudo.

Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia:  Escola Primária de Alagoa

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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 6/12/2014 10:21:00 da tarde

domingo, 8 de junho de 2014

[À Descoberta de Vila Flor] Peneireiro

Já há alguns anos que não tínhamos o prazer de ver tanta água.

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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 6/08/2014 10:25:00 da manhã

quarta-feira, 4 de junho de 2014

[À Descoberta de Vila Flor] e de repente é noite (XXIX)

É dorido o canto
estrangulado na garganta da tarde
acentuando a irrealidade do real.
Nascem sobressaltos
dos estalidos das madeiras velhas.
Debruçamo-nos no poço
e só a nós ouvimos,
do sorriso das guardas
ao soluço dos fundos.

Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Pôr do sol - Arco/Vale da Vilariça. 

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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 6/04/2014 10:18:00 da tarde