quarta-feira, 22 de julho de 2015

[À Descoberta de Vila Flor] Freixiel - 500 anos do foral

No passado dia 19 Freixiel esteve em festa. Comemoraram-se os 500 anos da atribuição do foral por D. Manuel I com um conjunto de atividades variadas que encheram por completo o dia e que transportaram os locais e os visitantes para outra época, relembrando a importância de Freixiel como vila e sede de concelho.
Ao início da manhã a Banda Filarmónica de Vila Flor anunciou a festa. As pessoas foram-se concentrando no Largo do Pelourinho para o lançamento do livro "Forais de Freixiel", da autoria de um filho da terra, Cristiano Morais, com patrocínio da Câmara Municipal.
O salão utilizado foi pequeno para tanta gente, o que mostrou que a cultura também têm procura.
A mesa integrava o Presidente da Junta, João Garcia, o Presidente da Câmara, Eng. Fernando Barros e o autor, Cristiano Morais. Estiveram também presentes todos os vereadores da Câmara Municipal.
Na apresentação do livro o autor lembrou algumas datas e momentos marcantes na história da aldeia/vila de Freixiel. Em 1055 aldeia foi integrada em Ansiães mas em 1195 subiu a vila, sede de concelho a que pertenciam também Mogo de Malta, Folgares, Pereiros, Codeçais, Candoso, Vieiro e Sarzeda. A carta de foro foi-lhe atribuída por D. Sancho Fernandes, Prior do Hospital. O segundo foral foi dado por D. Manuel I em 1515. O concelho foi extinto em 1836, por Passos Manuel.
 Outro episódio marcante foi o incêndio que consumiu bastantes casas e que deixou algumas famílias na miséria. Não foram as tropas francesas que invadiram Freixiel, queimaram a rua e picaram os brasões do pelourinho (como reza a tradição). A história parece ter sido bastante diferente. Foram soldados castelhanos que desceram a Freixiel, vindos dos arredores de Samões, exigir vinho para os soldados. Como não viram cumpridas as sua exigências usaram a força, saqueando e incendiando.
Na opinião de Cristiano Morais não faz qualquer sentido continuar a designar Freixiel como vila. Só no actual concelho de Vila Flor estão nas mesmas circunstâncias Vilas Boas e Sampaio.
Também foram lembrados acontecimentos mais recentes, como o encerramento da escola de 1.ºCiclo no ano lectivo de 2014-2015. O futuro da aldeia em termos demográficos não é nada animador.
Se o futuro é incerto, o passado é rico e necessita de ser estudado, preservado e mostrado aos visitantes e às gerações futuras.
Cristiano Morais diz ter em seu poder um espólio considerável, com origem no "castelo" de Freixiel, que gostava de ver cuidado e exposto. Lançou à autarquia o desafio para a criação de um espaço, Casa de Memória, que poderia resultar do aproveitamento da antiga Escola Primária. O repto teve um bom acolhimento, pelo menos no que toca à ideia e ficamos expectantes quanto a desenvolvimentos futuros.
Depois de autografado o livro lançado foi oferecido a todos os presentes.
No edifício da Junta de freguesia foi descerrada uma placa evocativa da comemoração dos forais de Freixiel.
No programa segui-se uma cerimónia religiosa, com a celebração da missa dominical.
Ao início da tarde a aldeia começou a ganhar ambiente de festa com muitos visitantes a chegarem e a associarem-se às comemorações. Começou a sentir-se o cheiro a comida, com a sopa de pedra a ser confeccionada numa panela de ferro, na fogueira, destinada a aconchegar o estômago mais ao cair da noite.
As personagens do Desfile Medieval vestiram os seus trajes. O som da gaita de foles e respectiva percussão dos Gaiteiros das Terras de Miranda alegravam o ar.
A concentração aconteceu junto ao adro da Igreja Matriz. Organizaram-se os diferentes "quadros" representativos das várias classes sociais da época. O grupo Filandorra - Teatro do Nordeste  coordenava o processo e davam um toque de profissionalismo aos grupo de actores improvisados, habitantes de Freixiel que quiseram ter um papel mais activo nas comemorações. Ao cortejo juntaram-se também os elementos do Rancho Folclórico de S. Domingos (Gravelos -Vila Real), presença surpresa, mas bem-vinda, para dar mais brilho à festa.
A Rua Grande e a Rua do Concelho assistiram, surpresas, à passagem de soldados, nobres, clérigos, bobos e populaça, num cortejo longo e animado.
Depois de uma passagem pela Rua Nossa Senhora do Rosário e Rua do Moinho, o cortejo regressou ao Largo do Pelourinho. O povo queria espectáculo e foi isso que aconteceu. Os espectadores distribuíram-se em redor do largo do Pelourinho e a base deste serviu de palco para a leitura do foral pelo arauto e sua entrega aos homens bons.
O grupo de teatro apresentou alguns quadros medievais que despoletaram espontâneas e prolongadas gargalhadas a novos e a menos novos, a quem o sol quente da tarde não afastou. Tive pena de não ter visto a representação do "caldo de Pedra com pão, vinho e carne assada".
Actuaram, depois, dois ranchos folclóricos: O Rancho Folclórico de Freixiel teve uma actuação original, com os seus elementos envergando trajes medievais ("inovação" que não foi bem aceite por todos!); o calor não foi entrave para que o rancho folclórico visitante mostrasse as suas danças com muita genica e alegria. As danças terminaram ao fim da tarde com os dois ranchos a dançarem juntos com a população.
A festa mudou-se para o Largo das Fontes. O local foi bem escolhido. Já estava completamente à sombra, é um espaço verde, bonito, com duas fontes, uma delas muito antiga (fonte de mergulho).
Entradas com chouriço e queijo, seguidas de carne assada no churrasco e a tão famosa sopa de pedra, prato de raízes nada transmontanas mas que é muito apreciada. Mais do que a comida, foi o convívio, a música, a alegria, o encontro de gerações que tornou o momento num dos principais das comemorações.
Mais tarde, já com a barriguinha composta, a refeição foi terminada com belas e doces frutas da época, que só de ver apetece comer.
O programa terminou com  mais um momento musical, os Troika, um grupo jovem que animam arraiais com a sua música mexida bem portuguesa.
Foi um dia em cheio. Além do que aqui lembrei, ainda houve tempo para fazer algumas fotografias da aldeia, uma visita à capela de Nossa Senhora de Rosário, à forca e para apreciar a exposição de artefactos antigos, verdadeira viagem ao passado. Também estiveram expostas peças de artesanato de um artesão local.
Estão de parabéns todos os que se empenharam na planificação e a realização das diferentes atividades. Esta época de calor não é a mais agradável para algumas delas, como cozinhar ou vestir trajes quentes, mas todos deram o seu melhor para fazer uma bela comemoração. Acho que faltou um pouquinho de ambição, porque 500 anos só se festejam uma vez, mas para quem está de fora é muito fácil falar. Freixel e as suas gentes, estão de parabéns.
Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 7/22/2015 06:11:00 da tarde

quarta-feira, 24 de junho de 2015

[À Descoberta de Vila Flor] A Menina das Cravelinas e Bem-Me-Queres

«...Trepa-se a Vila Flor por estrada retorcida, de caracol... faz tonturas. Ao enfrentarmos o povoado, porém, que sensação de conforto! Aquilo não é um burgo alpestre - é um ramalhete de cravelinas e bem-me-queres no decote da serrania». 
Sousa Costa
É costume da Câmara Municipal da minha terra, por gentileza não sei se já imitada (ou já iniciada) por qualquer edilidade congénere, comunicar a todos os munícipes de mais aquela, apartados do berço pelos impulsos caprichosos do destino, os factos principais que respeitam ao seu grato efectivo de valorizações e encómios.
E não se julgue que a finalidade visada seja a propaganda da actuação dos presidentes, suas ideias, criações, méritos, realizações, como é de muito abuso por aí.
Não! O que eu sinto nos visos desse proceder simpático, é o carinho de manter unida a família vilaflorense, aconchegado ao lar, essa lareira que tem achas de pinho a arder eternamente sobre o trasfogueiro, inundando a cozinha de fumo, que faz bem aos pulmões e aos chouriços, largando choinas que nos caem sobre o capote, brandamente, estejamos nós lá ou no cabo do mundo.

É bom que não se esqueçam os nomes que mais fulgor puxaram à nossa «lis» doirada. Mas o que nos encanta, o que fica, é a resultante das forças que alindaram o nosso ninho  materno, tomando-o aprazível, donairoso, confortável, condicionando a beleza necessária a ouvirmos do Dr. Sousa Costa um elogio como o que encima este pequeno escrito e que nos foi transmitido pela vereação da Câmara da minha terra.


Com que então, o Sr. Dr. Sousa Costa foi a Vila Flor e, julgando encontrar um burgo alpestre, descobriu «um ramalhete de cravelinas e bem-me queres no decote da serrania»?!
Tocou-me Sua Ex.ª num dos meus queridos amores. Não sei se me zangue com ciumes, se me envaideça com orgulhos...
Dom Dinis teve a mesma agradável surpresa há 670 anos, e mudou-lhe o nome, transportando-o do sector das póvoas para o campo das flores. Dois artistas, dois sentimentais, dois poetas.
A minha terra, para ser bem tratada, só pela poesia. Ela é gaiata,. morena, dentinhos de cal, cabelos escudos, aroma de madressilva no colo de rosas brancas, menina do meu agrado, sempre jovem, com jóias ricas de família nos dedos afusados, adereços romanos, góticos, árabes, judaicos...
A serra, molosso de xisto e terra escura deitado entre o Facho e as Portas do Sol, abriga-a do norte, expõe-a abertamente às soalheiras do sul, tendo-a no regaço, como desvela da mãe.
Quem, há vinte anos, subisse às capelinhas, dispostas mesmo no alto, pela tenaz dedicação dum grande vilaflorense, que tem o nome indelevelmente ligado às graciosas ermidas - Manuel Álvares Pereira de Aragão - via o povoado, lá no fundo, começar na Santa Luzia, na «máquina» - nome consagrado da fábrica de moagem inaugurada pelo gigante João de Matos, da minha saudade de criança - na Rapadoira e por ali abaixo até à Portela.
Hoje, o passeante, quer se sente nos degraus da velha capela de N.ª S.ª da Lapa, fachada alvíssima, ponteaguda, seu portelo de mina à esquerda, encravada em ciclopes de rocha bronzeada; quer se encoste às capelas de Santo Antão e São Bernardino, de cúpula em pirâmide; quer se instale nos miradoiros do santuário hexagonal da Senhora dos Remédios, depois de refazer-se do esforço da ascensão, com um lenço que lhe enxugue a testa ou uma aba de chapéu que lhe desencalme o rosto congestionado, tem o grato prazer de verificar quanto a vilazinha subiu, como casas novas nasceram, num pululante renovar de gerações, vindo a fazer guarda de honra ao formoso edifício da «Domus Municipalis», padrão senhorial do concelho e da comarca, de costas no peito dos olivais da serra. A menina aconchegou-se melhor ao regaço da serra-mãe, como gata mimalha que se levanta para se acomodar mais consoladinha ao sol da graça. A menina enfeitou-se. Deitou fora os candeeiros mal cheirosos e fumarentos do seu «boudoir» e meteu electricidade; instalou lindas torneiras onde jorra água pura da serrania; tem um lindo telefone de plástico rosado e translúcido, sobre a mesa de cabeceira; e vem à janela admirar o recorte moderno de avenidas e pracetas recém-nadas, seus balaústres, suas copas redondinhas como hortênsias, seus canteiros de relva fresca, rampas, escadarias, globos de candeeiros, aqui e ali, num conjunto de apoteose surpreendente, embora um fundo suspiro lhe sacuda o peito, saudoso da sua velha praça, que era a mais bela iluminura do seu pergaminho, que era o seu coração, o seu carácter, agora fendida, imolada a um desalmado critério de urbanização!

 E a menina aparece no limiar da janelinha, mirando as lavadeiras nos tanques novos, entre olivedos e amendoais, onde cantam melros e rouxinóis, enfeitada com um ramalhete de cravelinhas e bem-me-queres entre os seios macios de adolescentes!
Quando, há anos, vim para o sul, proclamava com orgulho a minha naturalidade: VILA FLOR!
- Mas onde é que é isso?...
E a pergunta, quase constante, entrava-me como um punhal no peito apaixonado, entre estas costelas que se criaram com água da Fonte Romana e com pão borneiro da Párreas, trigo dessa terra feraz, humosa, florida, transmontana, cuja seiva me circula no sangue, como os caracteres do progenitor nas veias do filho que o não desmente.
Agora, vejo com esfuziante alegria que Vila Flor não é nome de qualquer Alguidares de Baixo, estranho na sabedoria comum dos nossos centros mais esclarecidos. Os jornais falam, a fama corre, percorre, e aponta-se o exemplo duma vila que em 20 anos se vestiu de novo, se toucou de graças,
se impõe, na escala do progresso, que afere os valores do país, de Norte a Sul.
Não conheço, por meu mal, o Senhor Dr. Sousa Costa. Mas o facto não me inibe de lhe deixar aqui o meu cartão de visita, agradecendo as palavras que dirigiu à «minha menina», cartão em que, sob o nome, apenas imprimo esta dignidade qualificativa: vilaflorense.

Excerto do livro Paisagens do Norte, escrito pelo Dr. Cabral Adão e publicado em 1954. Este livro teve uma segunda edição pela Câmara Municipal de Vila Flor em 1998 (Minerva Transmontana, Vila Real). Pode ser encontrado no Museu Berta Cabral, na sala dedicada a Vila Flor.

Luís Manuel Cabral Adão nasceu em Vila Flor a 24 de Junho de 1910 falecendo a 6 de Agosto de 1992, em  Almada, vitimado por paragem cardíaca, partiu, no dia seguinte, para Vila Flor, para jazigo de família.

domingo, 21 de junho de 2015

[À Descoberta de Valpaços] Possacos - Caminhos com história

No dia 14 de junho de 2015 a Comissão de Festas de Possacos levou a cabo o III Percurso Pedestre - Ponte do Arquinho, "Caminhos com história. Na noite anterior choveu torrencialmente em toda a região e a manhã mostrou-se tormentosa provocando receios na organização que chegou a por em casa a realização da caminhada. A organização vacilou mas alguns caminheiros destemidos foram chegando e "não houve como dizer não".
Apenas compareceram 1/3 dos inscritos mas, mesmo assim, o grupo era bastante heterogéneo, quer nas idades, quer na proveniência , ouvindo-se falar português, castelhano e francês.
No pequeno-almoço o folar esteve presente, ou não seja este o produto estrela de Valpaços. Os participantes aproveitaram para se conhecerem, ou para se reverem, porque alguns já se conheciam doutras caminhadas. Foram oferecidos como brindes, um boné gravado expressamente para a caminhada e uma pequena garrafa de vinho, Ponte do Arquinho.
Entretanto o estado do tempo foi melhorando, mas ainda partimos com guarda chuva, mas não chegou a ser necessário. Ao final da manhã o céu apresentava-se azul e com poucas nuvens. Depois do almoço, voltou a chover.
Iniciámos a caminhada com um breve percurso pela aldeia. Não foi possível prestar muita atenção porque o passo era muito acelerado. Eu tinha a intenção de conhecer bem a aldeia durante o período da tarde, mas isso não veio a acontecer.
Passámos pela rua Direita e pelo Largo da Fonte, único espaço que eu já conhecia. Visitámos o solar dos Xavieres. Seguimos para a igreja pela rua José Manuel Vieira. Celebrava-se a Eucaristia e não não entrámos. A igreja tem como orago Nossa Senhora das Neves, bem presente numa imagem no frontispício.
Continuámos pela Rua Martianos até a pequena capela onde fizemos a foto de grupo.
O destino seguinte seria a aldeia abandonada do Cachão. Fomos pelo caminho chamado "dos mortos" porque era por ele que conduziam os falecidos na aldeia de Cachão, para serem sepultados na sede de freguesia,
Pelo caminho foram surgindo cerejeiras e figueiras carregadas de frutos, desafiando os caminhantes, alguns não resistiram à tentação.
Eu, como habitualmente, seguia no grupo da retaguarda muito atento à paisagem, à fauna e à flora, trocando impressões com dois jovens da organização que me fizeram companhia durante todo o percurso.
Foi a minha primeira caminhada no concelho de Valpaços, por isso tudo era novo, mas muito familiar. Desde os primeiros quilómetros que fiquei positivamente surpreendido com o percurso. A organização teve imenso trabalho na limpeza de caminhos tradicionais, pouco utilizados e já tomados pelas silvas.
Nesta zona predomina o granito, por vezes com formações gigantescas e esculturalmente talhadas pelos tempos. A flora é muito variada, com árvores e arbustos dignos de referência como o zimbro, sumagre, medronheiro, espinheiro e cornalheira. A exuberância de maio já passou mas ainda havia baste colorido no hipericão, fel-da-terra, dedaleiras, arçãs ou na modesta erva-prata que cobria os caminhos.
Os motivos de interesse eram muitos, mas já se vislumbrava ao fundo as ruínas das casas de Cachão. Este curioso nome foi, por certo, herdado do rio, uma vez que cachão é uma passagem estreita no rio, mas os locais não parem fazer essa associação.
Nas ruínas adivinhava-se tudo o que uma aldeia da época necessitava: fonte, lagar, forno, capela e pequenas parcelas de terreno de onde arrancavam o sustento, juntamente com os animais que criavam. Imaginei mesmo galinhas no centro da aldeia a correrem em todas as direções. Algum porco solto, a vaguear, completamente integrado com as galinhas, os cães e os animais de tração. Chego a pensar quem habitava estes lugares eram felizes, longe da pressão dos relógios, do burburinho dos hipermercados, vivendo em família e comunidade.
Eu já ficava ali a explorar cada recanto das casas, mas o percurso estava traçado, havia que continuar.
Visitámos a pequena capela de S. Genésio (ou S. Gens?). Foi recuperada e está limpa, cuidada e bonita. Parece que todo o orgulho de muitos dos que aqui tiveram as suas raízes se concentrou na recuperação e preservação deste espaço de culto, onde se realiza uma festa no mês de agosto.
Fizemos um curto desvio ao rio Rabaçal. Foi o local mais paradisíaco que encontrei ao longo do percurso! A açude para reter as águas que faziam rodar as mós dos antigos moinhos ainda está parcialmente operacional . As águas caem em cacheiras de espuma branca. O verde da vegetação ribeirinha é impressionante . Árvores, arbustos e fetos em plena harmonia, que o homem já pouco perturba. Até a barca se foi.
A posição dos antigos moinhos é facilmente identificada pela presença de enormes mós, já cobertas de musgo, repousando na mais completa indiferença. Tudo ali era perfeito: o barulho das águas, a luz por entre as folhas dos amieiros e a cor que que voltou à normalidade depois dos trajes coloridos dos caminheiros se afastarem. É um local para revisitar.
Seguimos viagem por entre pinheiros e fragas, adivinhando hortas, vinhas e olivais nos espectros dos caules que ficaram, cada vez mais comidos pelo tempo e pela vegetação espontânea que não para de crescer. Também aqui a Comissão fez um excelente trabalho na limpeza dos trilhos.  Ao longo de todo o percurso, de onde em onde, foram colocados cartoons perdurados nas árvores. O seu teor engraçado e brejeiro despertou gargalhadas e mereceu fotografias. Foi a primeira vez que encontrei estes "quadros" e achei imensa graça. Também foram colocadas notas históricas nos pontes merecedores, enriquecendo a caminhada que assim mereceu inteiramente a designação de "caminhos com história".
Pouco tempo depois, junto ao rio Calvo, esperava-nos o reforço. Confesso que nem reparei no que no que constava. Colhi uma maçã e embrenhei-me na vegetação admirando o leito irregular , as rochas cobertas de musgo, e os regatos de água límpida que contornavam as rochas. Comer, poderia ficar para mais tarde, mas tinha que gozar o local.
A paragem seguinte foi na Ponte do Arquinho, romana, que parece integrar uma via que ligaria Braga a Astorga. Outra teoria indica que esta via ligaria o Tâmega ao Douro. Contudo, não restam dúvidas da sua origem e antiguidade e monumentalidade uma vez que o tabuleiro tem mais de 7 metros de largura.
Os sulcos gravados na calçada lembram séculos, milénios de uso dos rodados dos carros, das ferraduras do cavalos que por aqui transportaram aldeões, e fidalgos, centuriões e soldados.
Da ponte à aldeia passámos por mais um trilho muito bonito. Uma zona fresca, com vegetação luxuriante que cria um verdadeiro túnel por onde passámos.
Entrámos em Possacos pouco passava do meio dia e meio, o que nos deu ainda tempo para visitar a igreja matriz e um espaço que pretende ser um museu.
A igreja é do séc. XVII. À entrada, mesmo com pouca luz, chama à atenção o dourado do altar da capela-mor. Curiosamente ainda mantém o gradeamento a separá-la do resto da igreja. A talha dourada é realmente deslumbrante as o teto da capela também merece atenção. Tem pinturas, em caixotões, representando passagens da vida de Cristo do nascimento à ressurreição e de Nossa Senhora.
Num espaço da junta de Freguesia visitámos uma sala com artefactos antigos, principalmente ligados à carpintaria. Trata-se de um embrião de um espaço museológico que se pretende criar. Mesmo assim já reúne um bom número de peças, curioso e já em desuso que interessa preservar e mostrar às gerações vindouras.
 Terminado a caminhada foi chegado o momento de degostar as iguarias que nos tinham preparado. Não faltaram queijo, fiambre, carne e salsichas assadas, azeitonas, salada, (bom) pão, e, como prato principal, uma deliciosa feijoada de comer e não "chorar por mais" porque a panela era grande e a solução era voltar a comer.
Não falei do vinho, que era bom, do caldo verde e das frutas para sobremesa. Nestas destacam-se a saborosas cerejas, tão doces e famosas que figuram no brasão da freguesia.
Foi tudo tão bom que para e foi com muita pena que vi começar a cair a chuva que me impedir de explorar as ruas da aldeia como pretendia, mas senti-me satisfeito. Fomos bem recebidos, muito bem tratados, o percurso foi muito interessante e toda a gente foi simpática e acolhedora.

Só me resta agradecer à Comissão e à Junta de Freguesia o terem-nos proporcionado uma tão boa manhã de domingo e aos caminheiros pelo alegria e proximidade com que me trataram. Espero voltar, se não for antes, pois que seja na próxima Caminhada com História.

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Publicada por Blogger às À Descoberta de Valpaços a 6/20/2015 07:17:00 da tarde

domingo, 26 de abril de 2015

[À Descoberta de Mogadouro] Caminhada em Brunhoso

No dia 19 de abril realizou-se em Brunhoso mais um passeio pedestre pelos caminhos que conduzem à fraga do Poio.
A actividade foi organizada pelos serviços da Câmara Municipal em colaboração com a Junta de Freguesia de Brunhoso. Como estava integrada num conjunto de caminhadas mensais no concelho, contou com um grupo assíduo de caminheiros, mas também com a população da aldeia que nunca diz não a atividades do género.
Apesar do estado do tempo não ser muito convidativo, choveu durante a noite, a manhã acordou quase sem nuvens. Mesmo assim houve quem jogasse pelo seguro, fazendo-se acompanhar de um guarda chuva.
 A concentração teve lugar junto à Casa do Povo e, pouco tempo depois da chegada do autocarro que transportou os caminheiros desde Mogadouro, foi dada ordem de partida , devo dizer, a grande ritmo.
Foram mais de 100 pessoas que partiram de Brunhoso em direção ao Poio.  A manhã estava luminosa, fresca e húmida e o passo era acelerado.
Quase ninguém parou para ouvir a tecedeira no seu incansável tear, na Fraga da Tecedeira. Os montes ainda não apresentavam a sua maior exuberância, mas está quase, com todas as estevas floridas, as arçãs, giestas brancas e pilriteiros a espalharem todo o seu perfume. Até apareceram até algumas orquídeas selvagens e ramos de raposa, mas só visíveis a quem seguia atento.
O grupo foi-se alongando, principalmente na subida do ribeiro de Juncaínhos  para a fraga do Poio, quando o sol já aquecia e o declive acentuado obrigava a um maior esforço.
No alto da fraga fez-se uma pausa. A Junta de Freguesia proporcionou um reforço composto por sandes, fruta e água.
Fomos surpreendidos com a distribuição de um bonito cantil em alumínio, com o brasão da freguesia gravado, a todos os participantes. É uma bonita (e útil), lembrança.
Quanto à paisagem, ela estava bonita como sempre. Olhando em direção ao Cachão ou à Barca, via-se claramente que o rio já subiu bastante, mas nada que impressione. Visto do alto do Poio o rio é muito pequeno e não se tem noção das alterações que se estão a verificar no leito do rio. Isso só é evidente quando nos aproximamos dele.
Distraí-me com as fotografias e, quando me apercebi, já quase todos tinham partido. O objectivo também não era chegar em primeiro a Brunhoso e fizemos o caminho de regresso em conversa animada, com um grupo de Brunhosenses da velha guarda.
Na fonte de juncais fizemos uma pausa para nos deliciarmos com a água fresca bebida pela corcha. A fonte foi limpa antecipadamente e foram disponibilizadas no local várias corchas, para que todos pudessem saciar a sua sede. Mesmo os que não tinham sede, posavam para as fotografias.
O grupo dos últimos chegou à aldeia pouco minutos antes do meio-dia.
Fez-se um compasso de espera. O almoço estava a ser ultimado na Casa do Povo pela Comissão de Festas de Sta Bárbara, que se juntaram à iniciativa e também procuraram angariar alguns euros para a festa de verão.
Da ementa constou churrasco misto, batatas a murro, acompanhados por salada de tomate e alface. Como bebidas havia água, refrigerantes e vinho. À sobremesa, fruta.
O almoço decorreu num ambiente de festa, de são convívio juntando mais de 160 pessoas. A azáfama na cozinha era muita mas ninguém estava com pressa e tudo foi saboreado com muito prazer. Estava tudo óptimo, até as pequenas malagueta que o Sr. Barranco levou no bolso.
Antes do final da festa ainda tivemos mais uma surpresa: um enorme bolo de aniversário e um coro a cantar os parabéns a um caminheiro que fazia 50 anos. Foi um final muito doce.
Soube bem reviver outras caminhadas ao rio, realizadas noutros moldes, em boa companhia e com boas "merendas". O dia esteve fantástico e todos os responsáveis deram o seu melhor para satisfazer os Brunhosenses e por receber bem quem nos visitou.
Obrigado a todos e em especial aos elementos da Junta de Freguesia.
Aníbal Gonçalves



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Publicada por Blogger às À Descoberta de Mogadouro a 4/26/2015 01:23:00 da manhã