quinta-feira, 10 de setembro de 2015

[À Descoberta de Vila Flor] Festa de S. João no Mourão

No dia 23 de Junho realizaram-se no Mourão as tradicionais festas de S. João. Este ano coincidiram com um dia feriado, o que me permitiu acompanhar de perto estas festividades.
Cheguei à aldeia a meio da tarde e a paz era tanta que eu pensei ter-me enganado na data. O palco montado na Largo de São Ciriaco desfez as minhas dúvidas. Depois de um largo passeio pela aldeia apercebi-me que as actividades estavam a decorrer no campo de futebol.
Nesse local decorreu uma animada disputa dos jogos da malha e do cepo, de que acompanhei a parte final. Estes jogos têm os seus adeptos habituais, que jogam como poucos e têm gosto em jogar. Estou habituado a vê-los, por exemplo na Festa das Maias, em Folgares. Em jogo estavam prémios como presuntos e cabritos, que já esperavam pelos vencedores dentro da casa dos milagres.
No largo preparavam-se tudo para um grande arraial. O porco no espeto começava a espalhar o seu aroma pelas redondezas. Preparavam-se as mesas e partia-se o pão. Mais tarde assaram-se as as sardinhas e barriga de porco.
Ao início da noite foi erguido o enorme mastro, um pinheiro com cerca de 10 metros de altura. Depois de revestido por palha, elevou-se às alturas com a força dos braços dos homens, já habituados a esta prática antiga.
Pouco depois das oito da noite, já com os prémios dos torneios entregues, iniciou-se o jantar. Parecia que a população de Mourão tinha triplicado! Na verdade havia pessoas de todo o concelho e até pessoas do concelho de Carrazeda de Ansiães!
O grupo musica, penso que se chamava "Terceira Geração", tocava música popular, nem sempre com grande afinação. É um grupo de jovens, irreverentes, que por vezes levaram o apimentado das músicas a excessos, mas poucos deviam estar com atenção às letras. A maior parte das pessoas dançava animadamente porque a noite estava muito fria, e, ou se aquecia o corpo com uns copos de vinho, ou com danças animadas ao som da concertina.
 Já depois da meia noite foi pegado fogo ao vareiro. Estava vento e as chamas devoraram rapidamente a palha. Mal o pote de barro preso nas alturas caiu ao chão e se desfez em mil pedaços, também a multidão debandou, restituindo à aldeia a sua habitual pacatez.
A queima do vareiro é uma prática levada a cabo em muitas localidades de Portugal, mas na maior parte delas faz-se por altura do Carnaval (embora se faça também nos Santos Populares). Tentei falar com algumas pessoas e saber mais pormenores sobre a tradição mas, não encontrei grande receptividade. A organização desconhecia a existência deste blogue e tive alguma dificuldade em justificar a minha presença e o porquê de tantas fotografias.
Foi uma boa oportunidade para Descobrir mais do Mourão, mas acredito que as pessoas são mais recetivas e abertas do que o que senti. Voltarei, logo que haja outra oportunidade.

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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 6/25/2011 12:16:00 da tarde

segunda-feira, 27 de julho de 2015

[À Descoberta de Mondim de Basto] Noite dos Romeiros 2015

Se há um dia bom (ou noite) para partir À Descoberta do concelho de Mondim de Basto ele é sem dúvida o dia dos Romeiros de S. Tiago, integrado nas festas do concelho, a 24 de julho.
A escolha do dia não foi ao acaso. A palavra romeiro já diz muito e se há coisa que tenho feito nos últimos anos são peregrinações, não no sentido religioso mas embebido da magia da descoberta de acontecimentos genuínos. A primeira palavra que aprendi, ao procurar alguma informação sobre a Noite dos Romeiros, foi a palavra merendeiro! Imaginei muitos petiscos, sabores da terra, aquilo que de mais tradicional houve/há no concelho.
 Este evento pretende recuperar a tradição dos romeiros que subiam à Senhora da Graça, vindos dos mais distantes locais do concelho. Traziam mantas e cestas de vime com os melhores petiscos que havia na época, que constituía o merendeiro, abundante, para alimentar a família durante os dias que durasse a romaria. O vinho era transportado em cabaças.
Cheguei a Mondim ao final da tarde. Praticamente era tudo novo para mim. Estive em Mondim de Basto apenas por duas vezes: a primeira foi há cerca de 15 anos e dela apenas recordo um bonito espaço verde, com um lago e várias espécies de patos. A segunda foi no mês de maio passado, com entrada pela freguesia de Atei e saída pela freguesia de Ermelo e Pardelhas, sempre com um cenário fantástico, mas sem tempo suficiente para poder "saborear" as bonitas paisagens que fui encontrando. Desta vez teria mais tempo, mas havia que aproveitá-lo.
À chegada já se viam pessoas pelas ruas envergando trajes muito pouco comuns para os dias de hoje. Já eram os trajes para o desfile. Apenas houve tempo para fazer o check-in no hotel e sair para a rua, para não perder pitada.
O dia amanheceu triste, chuvoso até, mas quando sol se escondeu no horizonte encheu a vila numa luz bonita, em harmonia com a iluminação nocturna que também já estava ligada.
Dividi-me entre a vontade de ficar na rua, a acompanhar os vários grupos que já cantavam e tocavam, e a necessidade de comer alguma coisa, porque a noite ia ser longa. Consegui fazer as duas coisas, mas nenhuma com calma.
 Encontrei uma tasquinha, com aspecto muito rústico e interessante, com uma mesa vaga. Não procurei mais e abanquei-me ali mesmo, no verdadeiro sentido da palavra.
Havia muitos e variados petiscos à escolha, o difícil foi mesmo escolher, mas o tempo era pouco. Como transmontano, habituado aos bons vinhos maduros do Douro, também no vinho tive alguma dificuldade. Há um conjunto de termos que são bastante diferentes de concelho para concelho, no que se refere à gastronomia, mas a ideia era mesmo experimentar, descobrir. Saíram um pezinhos de coentrada, pataniscas de bacalhau e arroz de feijão e porco preto com batata a murro. Não arrisquei no vinho verde, preocupado que não me caísse bem e me estragasse a noite.
Talvez porque as expectativas fossem altas, não foi uma boa experiência gastronómica.
Pelas 21:30 estava tudo pronto na Av.  Dr. Augusto Brito para o início do desfile. Estava à espera de muitos grupos, mas aquilo que encontrei superou todas as expectativas. Contei 32 grupos, não sei se havia mais.
Dei-me ao cuidado de ler o regulamento do desfile, por isso nem tudo foi surpresa. No entanto, há algumas constatações que merecem realce: é muito interessante verificar que os grupos eram constituídos por pessoas com grande amplitude de idades. À frente, segurando a placa identificativa, iam quase sempre crianças (e por isso mereceram a minha atenção fotográfica), mas havia muitos jovens e idosos. Pude até verificar que os idosos eram acarinhados nos grupos, talvez por serem eles que têm mais forte a tradição. Cantavam com grande entusiasmo.
A segunda surpresa foram os instrumentos. Estou muito mais habituado a festas e arraiais onde predomina a gaita de foles. Por isso, ver e ouvir tanta concertina foi um momento único. A sonoridade deste instrumento é, só por si, uma festa. Já os trajes não diferem muitos dos que podemos encontrar noutras pontos de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Assisti à passagem dos diferentes grupos, um a um. Foi muita informação em simultâneo para "processar", mas ainda fiquei com algumas quadras:
Somos Romeiros
E gostamos de Cantar
Do Vilarinho
Nós viemos festejar.

Nós somos do Vilarinho
Viemos p'ra Romaria
Para as festas de Mondim
trazemos muita alegria.

Nossa Senhora da Graça
Vinde a baixo dai-me a mão
Que sou Romeirinha nova
Abafo do coração.
Desloquei-me depois para o Largo do Conde de Vila Real, onde assisti à chegada da maioria dos grupos. A alegria era a mesma, talvez até maior, fruto do entusiasmo e dos muitos líquidos "energéticos" bebidos pelo caminho. O Sr. Presidente da Câmara, juntamente com outras personalidades, cumprimentavam, um, a um, os diferentes grupos.
Todo o Largo, bem como a Praça 9 de Abril e Avenida dos Bombeiros tinham marcações e fardos de palha para as toalhas e merenda. Os grupos eram extensos, a merenda muita e foram espalhadas toalhas pelo chão e na relva do jardim onde foram postos  surpreendentes manjares, uns mais antigos, outras nem tanto. Havia bivalves e pizzas, mas eram excepções, quase todos os grupos apresentavam; bacalhau frito com ovos, pataniscas, cebolas com vinagre, pepinos com sal, sardinhas ou peixinhos do rio, bolinhos de bacalhau, presunto, enchidos variados, azeitonas, bolos, bolas de carne, migas de pão, tremoços, etc. etc.
Tive oportunidade de provar alguns petiscos, aqueles que mais me chamavam à atenção, principalmente por me serem pouco familiares. Estava tudo muito saboroso.
Durante horas as pessoas comeram, beberam, tocaram, cantaram e dançaram. Os grupos estavam muito próximos e era uma festa de festas, com cantares típicos, concertinas, bombos e pandeiretas e pessoas a dançarem, algumas descalças,
Depois da uma da manhã foi a aparelhagem sonora que animou a malta e tive nova surpresa: novos e velhos a dançarem em comum, música pimba e outra nem tanto (Fasto, por exemplo). Curiosamente todos dançavam com muita alegria. Há muito que não via um arraial assim!
Perto das três da manhã abandonei o recinto. A música continuou a tocar e a animação durou até ao nascer do dia (talvez por isso, foram poucos os que compareceram na Senhora da Graça, para a festa religiosa).
Pela manhã do dia 25 seria de esperar que houvesse muito lixo pelo chão, mas quando fiz um passeio pela vila já tudo tinha sido limpo e nas flores do jardim cintilavam pérolas de água usada na rega.



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Publicada por Blogger às À Descoberta de Mondim de Basto a 7/27/2015 01:44:00 da tarde

[À Descoberta de Vila Flor] Rotunda

"Em tempos que não vão longe, descia do Gavião, bolsa atravessada. Do alto do povoado, com a corneta de local delido, juntava, pelo eirô, os interessados em notícias.
O acto rotineiro acertava a aldeia sem relógio de campanário.
- Co...rrei...o...o!
A penúltima sílaba era sempre longa, atirada com o fôlego de alegria cheia. Quer em dias de casa, aborrecido; quer em manhãs de primavera; ou na ventania agreste do outono esvaecido, ou pelo inverno triste com palmos de nevoeiro.
- Dê-me um de dez tostões!
- Vosselência não tem nada hoje!
- Hoje, não, não pode ser sempre. Remate ao sebastianismo ingénuo do seu faminto rebanho.
Vivia todo preso àquele seu mundo. De graça, dava boas novas, de graça, entregava notícias más.
Se ele soubesse o que oferecia , às vezes, dentro de um sobrescrito, não daria a ninguém novas de sofrimento.
- Espere aí, pegue lá um copito, é p'ró caminho!
- V, então, depressa e eu é que lhe agradeço.
- D'hoje a um ano!
- E o senhor que os conte...
Na horta do portão, naquela tarde dos pássaros não cantarem, pousou a cabeça, duas pedrinhas e, de borco, sorveu dois tragos fundos da fontela.
- Tu não vens bô, home!
- Que é que vocemecê tem, meu pai?
- São uns frios, isto não é nada!
- Vamos ainda pôr as batatas?
No outro dia, a corneta não se ouviu no povoado. Depois, e depois... e sempre, foi outro de semblante mais triste. O povo não gostou.
Já não se ouvia a corneta do alto da sua aldeia."

Poema de Nascimento Fonseca*, publicado no jornal Enié  a 15-10-1975.

Fotografias, pela ordem: Aldeia abandonada do Gavião; Vista parcial da aldeia do Nabo; paisagem em direção ao vale da Vilariça, a partir de Vila Flor; marco do correio existente na Praça da República em Vila Flor.

*José do Nascimento Fonseca nasceu no Nabo a 22-12-1940 e faleceu a 27-07-1983.

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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 7/27/2015 01:53:00 da tarde

quarta-feira, 22 de julho de 2015

[À Descoberta de Vila Flor] Freixiel - 500 anos do foral

No passado dia 19 Freixiel esteve em festa. Comemoraram-se os 500 anos da atribuição do foral por D. Manuel I com um conjunto de atividades variadas que encheram por completo o dia e que transportaram os locais e os visitantes para outra época, relembrando a importância de Freixiel como vila e sede de concelho.
Ao início da manhã a Banda Filarmónica de Vila Flor anunciou a festa. As pessoas foram-se concentrando no Largo do Pelourinho para o lançamento do livro "Forais de Freixiel", da autoria de um filho da terra, Cristiano Morais, com patrocínio da Câmara Municipal.
O salão utilizado foi pequeno para tanta gente, o que mostrou que a cultura também têm procura.
A mesa integrava o Presidente da Junta, João Garcia, o Presidente da Câmara, Eng. Fernando Barros e o autor, Cristiano Morais. Estiveram também presentes todos os vereadores da Câmara Municipal.
Na apresentação do livro o autor lembrou algumas datas e momentos marcantes na história da aldeia/vila de Freixiel. Em 1055 aldeia foi integrada em Ansiães mas em 1195 subiu a vila, sede de concelho a que pertenciam também Mogo de Malta, Folgares, Pereiros, Codeçais, Candoso, Vieiro e Sarzeda. A carta de foro foi-lhe atribuída por D. Sancho Fernandes, Prior do Hospital. O segundo foral foi dado por D. Manuel I em 1515. O concelho foi extinto em 1836, por Passos Manuel.
 Outro episódio marcante foi o incêndio que consumiu bastantes casas e que deixou algumas famílias na miséria. Não foram as tropas francesas que invadiram Freixiel, queimaram a rua e picaram os brasões do pelourinho (como reza a tradição). A história parece ter sido bastante diferente. Foram soldados castelhanos que desceram a Freixiel, vindos dos arredores de Samões, exigir vinho para os soldados. Como não viram cumpridas as sua exigências usaram a força, saqueando e incendiando.
Na opinião de Cristiano Morais não faz qualquer sentido continuar a designar Freixiel como vila. Só no actual concelho de Vila Flor estão nas mesmas circunstâncias Vilas Boas e Sampaio.
Também foram lembrados acontecimentos mais recentes, como o encerramento da escola de 1.ºCiclo no ano lectivo de 2014-2015. O futuro da aldeia em termos demográficos não é nada animador.
Se o futuro é incerto, o passado é rico e necessita de ser estudado, preservado e mostrado aos visitantes e às gerações futuras.
Cristiano Morais diz ter em seu poder um espólio considerável, com origem no "castelo" de Freixiel, que gostava de ver cuidado e exposto. Lançou à autarquia o desafio para a criação de um espaço, Casa de Memória, que poderia resultar do aproveitamento da antiga Escola Primária. O repto teve um bom acolhimento, pelo menos no que toca à ideia e ficamos expectantes quanto a desenvolvimentos futuros.
Depois de autografado o livro lançado foi oferecido a todos os presentes.
No edifício da Junta de freguesia foi descerrada uma placa evocativa da comemoração dos forais de Freixiel.
No programa segui-se uma cerimónia religiosa, com a celebração da missa dominical.
Ao início da tarde a aldeia começou a ganhar ambiente de festa com muitos visitantes a chegarem e a associarem-se às comemorações. Começou a sentir-se o cheiro a comida, com a sopa de pedra a ser confeccionada numa panela de ferro, na fogueira, destinada a aconchegar o estômago mais ao cair da noite.
As personagens do Desfile Medieval vestiram os seus trajes. O som da gaita de foles e respectiva percussão dos Gaiteiros das Terras de Miranda alegravam o ar.
A concentração aconteceu junto ao adro da Igreja Matriz. Organizaram-se os diferentes "quadros" representativos das várias classes sociais da época. O grupo Filandorra - Teatro do Nordeste  coordenava o processo e davam um toque de profissionalismo aos grupo de actores improvisados, habitantes de Freixiel que quiseram ter um papel mais activo nas comemorações. Ao cortejo juntaram-se também os elementos do Rancho Folclórico de S. Domingos (Gravelos -Vila Real), presença surpresa, mas bem-vinda, para dar mais brilho à festa.
A Rua Grande e a Rua do Concelho assistiram, surpresas, à passagem de soldados, nobres, clérigos, bobos e populaça, num cortejo longo e animado.
Depois de uma passagem pela Rua Nossa Senhora do Rosário e Rua do Moinho, o cortejo regressou ao Largo do Pelourinho. O povo queria espectáculo e foi isso que aconteceu. Os espectadores distribuíram-se em redor do largo do Pelourinho e a base deste serviu de palco para a leitura do foral pelo arauto e sua entrega aos homens bons.
O grupo de teatro apresentou alguns quadros medievais que despoletaram espontâneas e prolongadas gargalhadas a novos e a menos novos, a quem o sol quente da tarde não afastou. Tive pena de não ter visto a representação do "caldo de Pedra com pão, vinho e carne assada".
Actuaram, depois, dois ranchos folclóricos: O Rancho Folclórico de Freixiel teve uma actuação original, com os seus elementos envergando trajes medievais ("inovação" que não foi bem aceite por todos!); o calor não foi entrave para que o rancho folclórico visitante mostrasse as suas danças com muita genica e alegria. As danças terminaram ao fim da tarde com os dois ranchos a dançarem juntos com a população.
A festa mudou-se para o Largo das Fontes. O local foi bem escolhido. Já estava completamente à sombra, é um espaço verde, bonito, com duas fontes, uma delas muito antiga (fonte de mergulho).
Entradas com chouriço e queijo, seguidas de carne assada no churrasco e a tão famosa sopa de pedra, prato de raízes nada transmontanas mas que é muito apreciada. Mais do que a comida, foi o convívio, a música, a alegria, o encontro de gerações que tornou o momento num dos principais das comemorações.
Mais tarde, já com a barriguinha composta, a refeição foi terminada com belas e doces frutas da época, que só de ver apetece comer.
O programa terminou com  mais um momento musical, os Troika, um grupo jovem que animam arraiais com a sua música mexida bem portuguesa.
Foi um dia em cheio. Além do que aqui lembrei, ainda houve tempo para fazer algumas fotografias da aldeia, uma visita à capela de Nossa Senhora de Rosário, à forca e para apreciar a exposição de artefactos antigos, verdadeira viagem ao passado. Também estiveram expostas peças de artesanato de um artesão local.
Estão de parabéns todos os que se empenharam na planificação e a realização das diferentes atividades. Esta época de calor não é a mais agradável para algumas delas, como cozinhar ou vestir trajes quentes, mas todos deram o seu melhor para fazer uma bela comemoração. Acho que faltou um pouquinho de ambição, porque 500 anos só se festejam uma vez, mas para quem está de fora é muito fácil falar. Freixel e as suas gentes, estão de parabéns.
Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 7/22/2015 06:11:00 da tarde

quarta-feira, 24 de junho de 2015

[À Descoberta de Vila Flor] A Menina das Cravelinas e Bem-Me-Queres

«...Trepa-se a Vila Flor por estrada retorcida, de caracol... faz tonturas. Ao enfrentarmos o povoado, porém, que sensação de conforto! Aquilo não é um burgo alpestre - é um ramalhete de cravelinas e bem-me-queres no decote da serrania». 
Sousa Costa
É costume da Câmara Municipal da minha terra, por gentileza não sei se já imitada (ou já iniciada) por qualquer edilidade congénere, comunicar a todos os munícipes de mais aquela, apartados do berço pelos impulsos caprichosos do destino, os factos principais que respeitam ao seu grato efectivo de valorizações e encómios.
E não se julgue que a finalidade visada seja a propaganda da actuação dos presidentes, suas ideias, criações, méritos, realizações, como é de muito abuso por aí.
Não! O que eu sinto nos visos desse proceder simpático, é o carinho de manter unida a família vilaflorense, aconchegado ao lar, essa lareira que tem achas de pinho a arder eternamente sobre o trasfogueiro, inundando a cozinha de fumo, que faz bem aos pulmões e aos chouriços, largando choinas que nos caem sobre o capote, brandamente, estejamos nós lá ou no cabo do mundo.

É bom que não se esqueçam os nomes que mais fulgor puxaram à nossa «lis» doirada. Mas o que nos encanta, o que fica, é a resultante das forças que alindaram o nosso ninho  materno, tomando-o aprazível, donairoso, confortável, condicionando a beleza necessária a ouvirmos do Dr. Sousa Costa um elogio como o que encima este pequeno escrito e que nos foi transmitido pela vereação da Câmara da minha terra.


Com que então, o Sr. Dr. Sousa Costa foi a Vila Flor e, julgando encontrar um burgo alpestre, descobriu «um ramalhete de cravelinas e bem-me queres no decote da serrania»?!
Tocou-me Sua Ex.ª num dos meus queridos amores. Não sei se me zangue com ciumes, se me envaideça com orgulhos...
Dom Dinis teve a mesma agradável surpresa há 670 anos, e mudou-lhe o nome, transportando-o do sector das póvoas para o campo das flores. Dois artistas, dois sentimentais, dois poetas.
A minha terra, para ser bem tratada, só pela poesia. Ela é gaiata,. morena, dentinhos de cal, cabelos escudos, aroma de madressilva no colo de rosas brancas, menina do meu agrado, sempre jovem, com jóias ricas de família nos dedos afusados, adereços romanos, góticos, árabes, judaicos...
A serra, molosso de xisto e terra escura deitado entre o Facho e as Portas do Sol, abriga-a do norte, expõe-a abertamente às soalheiras do sul, tendo-a no regaço, como desvela da mãe.
Quem, há vinte anos, subisse às capelinhas, dispostas mesmo no alto, pela tenaz dedicação dum grande vilaflorense, que tem o nome indelevelmente ligado às graciosas ermidas - Manuel Álvares Pereira de Aragão - via o povoado, lá no fundo, começar na Santa Luzia, na «máquina» - nome consagrado da fábrica de moagem inaugurada pelo gigante João de Matos, da minha saudade de criança - na Rapadoira e por ali abaixo até à Portela.
Hoje, o passeante, quer se sente nos degraus da velha capela de N.ª S.ª da Lapa, fachada alvíssima, ponteaguda, seu portelo de mina à esquerda, encravada em ciclopes de rocha bronzeada; quer se encoste às capelas de Santo Antão e São Bernardino, de cúpula em pirâmide; quer se instale nos miradoiros do santuário hexagonal da Senhora dos Remédios, depois de refazer-se do esforço da ascensão, com um lenço que lhe enxugue a testa ou uma aba de chapéu que lhe desencalme o rosto congestionado, tem o grato prazer de verificar quanto a vilazinha subiu, como casas novas nasceram, num pululante renovar de gerações, vindo a fazer guarda de honra ao formoso edifício da «Domus Municipalis», padrão senhorial do concelho e da comarca, de costas no peito dos olivais da serra. A menina aconchegou-se melhor ao regaço da serra-mãe, como gata mimalha que se levanta para se acomodar mais consoladinha ao sol da graça. A menina enfeitou-se. Deitou fora os candeeiros mal cheirosos e fumarentos do seu «boudoir» e meteu electricidade; instalou lindas torneiras onde jorra água pura da serrania; tem um lindo telefone de plástico rosado e translúcido, sobre a mesa de cabeceira; e vem à janela admirar o recorte moderno de avenidas e pracetas recém-nadas, seus balaústres, suas copas redondinhas como hortênsias, seus canteiros de relva fresca, rampas, escadarias, globos de candeeiros, aqui e ali, num conjunto de apoteose surpreendente, embora um fundo suspiro lhe sacuda o peito, saudoso da sua velha praça, que era a mais bela iluminura do seu pergaminho, que era o seu coração, o seu carácter, agora fendida, imolada a um desalmado critério de urbanização!

 E a menina aparece no limiar da janelinha, mirando as lavadeiras nos tanques novos, entre olivedos e amendoais, onde cantam melros e rouxinóis, enfeitada com um ramalhete de cravelinhas e bem-me-queres entre os seios macios de adolescentes!
Quando, há anos, vim para o sul, proclamava com orgulho a minha naturalidade: VILA FLOR!
- Mas onde é que é isso?...
E a pergunta, quase constante, entrava-me como um punhal no peito apaixonado, entre estas costelas que se criaram com água da Fonte Romana e com pão borneiro da Párreas, trigo dessa terra feraz, humosa, florida, transmontana, cuja seiva me circula no sangue, como os caracteres do progenitor nas veias do filho que o não desmente.
Agora, vejo com esfuziante alegria que Vila Flor não é nome de qualquer Alguidares de Baixo, estranho na sabedoria comum dos nossos centros mais esclarecidos. Os jornais falam, a fama corre, percorre, e aponta-se o exemplo duma vila que em 20 anos se vestiu de novo, se toucou de graças,
se impõe, na escala do progresso, que afere os valores do país, de Norte a Sul.
Não conheço, por meu mal, o Senhor Dr. Sousa Costa. Mas o facto não me inibe de lhe deixar aqui o meu cartão de visita, agradecendo as palavras que dirigiu à «minha menina», cartão em que, sob o nome, apenas imprimo esta dignidade qualificativa: vilaflorense.

Excerto do livro Paisagens do Norte, escrito pelo Dr. Cabral Adão e publicado em 1954. Este livro teve uma segunda edição pela Câmara Municipal de Vila Flor em 1998 (Minerva Transmontana, Vila Real). Pode ser encontrado no Museu Berta Cabral, na sala dedicada a Vila Flor.

Luís Manuel Cabral Adão nasceu em Vila Flor a 24 de Junho de 1910 falecendo a 6 de Agosto de 1992, em  Almada, vitimado por paragem cardíaca, partiu, no dia seguinte, para Vila Flor, para jazigo de família.