A análise das distâncias percorridas no ano mostram que caminhei muito pouco, pelo menos do concelho de Vila Flor. Por isso, nada como recomeçar com mais força, testando o físico. O trajecto escolhido foi um já muitas vezes percorrido: Vila Flor - Santa Cecília, com ida e volta por caminhos distintos. São cerca de 15 km, com algumas paragens para apreciar a paisagem, é percurso para uma manhã inteira.
Por sorte o dia estava bastante bom para caminhar. A manhã fresca mostrou um céu com algumas nuvens que se foram pintando de negro. Por várias vezes caíram pequenas gotas de chuva, refrescando o ar e fazendo-me recordar emoções de outras caminhadas.
Houve duas coisas que marcaram o passeio, uma boa e outra má. A boa foi a quantidade de frutos da época que permitiram algumas fotografias interessantes, a má foi o reencontro com bastante lixo espalhado pelos montes que mostra que muito mudou na vida das pessoas mas o civismo ainda está muito longe do desejável.
Os campos estão bastante despidos de verdura. O calor do verão matou todas as ervas e só as giestas e pinheiros se mantêm "vivos". Já nos terrenos agrícolas há muito para ver e fotografar: são as amêndoas prontas para serem apanhadas (muitas já o foram); as uvas estão maduras e este ano parece haver grande quantidade; há muitas pêras, maçãs, alguns pêssegos e figos a sustentarem bandos de estorninhos que parecem muito satisfeitos com a abundância. As silvas da bordas dos caminhos estão carregadas de amoras e nos castanheiros os ouriços começam a ganhar forma.
Apesar das ameaças de chuva, a paisagem estava muito bonita. O Cabeço, visível ao longo de metade da caminhada, por vezes iluminava-se parecendo um farol. De Samões avistava-se o vale de Freixiel, permitindo admirar a paisagem até mais longe, pelo concelho de Murça, Alijó, quem sabe até de Valpaços ou Vila Pouca de Aguiar.
Acompanhei de perto o traçado do IC5. Os carros passavam rápidos, apressados, fazendo-me sentir feliz, por poder andar devagar, saborear o vento e a chuva, sentir o chão, ouvir os sinos da igreja de Carvalho de Egas, sem mais preocupações do que a de chegar a casa entre o meio-dia e a uma, para não fazer a família esperar por mim para o almoço.
Fiz uma visita aos "mal casados". Para quem não sabe, são duas rochas de "costas" voltadas uma para a outra. Não sei se uma música romântica ajudaria a "quebrar o gelo", mas como ainda ninguém teve essa "brilhante" ideia, as rochas vão continuar de "costas" voltadas, merecendo plenamente o nome de "mal casados".
Num dos parques de estacionamento do santuário de Santa Cecília há uma pequena macieira, bravo de esmolfe, que costumo visitar nesta época do ano. Estava carregada de frutos, maduros, sumarentos, bastante maiores do que em anos anteriores. Não tive muito tempo para pausas, mas colhi algumas maçãs que fui mordendo ao longo do caminho.
Foi após deixar Santa Cecília para que encontrei alguns montes de lixo. Infelizmente o lixo vai aparecendo um pouco por todo lado. Um sofá, aqui, um televisor mais além, há um pouco de tudo e onde menos se espera. Mas havia carradas de lixo, muito vidro, coisas que não dignificam as pessoas e as instituições.
Cheguei à barragem do Peneireiro perto do meio-dia. Algumas pessoas faziam os seus exercícios de manutenção. O Parque de Campismo já tem poucos campistas. A barragem tem um nível incrivelmente baixo de água, No local já sente a calmaria típica da maior parte do ano. O verão é muito bom, e necessário, até economicamente, mas nós temos o privilégios de poder gozar estes espaço durante todo o resto do ano.
Caminhei sem parar até Vila Flor. Senti-me muito bem fisicamente. A pausa de verão e o aumento de peso não afetaram o meu gosto por caminhar. Senti-me livre, relaxado, satisfeito por fotografar de novo os montes que já tão bem conheço.
A caminhada teve perto de 15 km, uma distância aceitável para início de temporada.
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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 9/15/2015 12:01:00 da manhã
Concelho:
| Carrazeda de Ansiães | Vila Flor | Miranda do Douro | Mogadouro | Torre de Moncorvo | Freixo de E.C. | Alfândega da Fé | |
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
sexta-feira, 11 de setembro de 2015
[À Descoberta de Vila Flor] e de repente é noite (XLVII)
Não reduzas tudo a esquadria e pedra.
Há sempre uma criança
em nosso horizonte de altas velocidades,
um ninho vazio nas mãos,
delgado corpo de aldeia à hora da sesta.
E o carvão de uma imensa noite
subindo pelas fontes onde correm
nossos terrores de caudaloso magma,
ávidos do centro
de um círculo perdido.
--
Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 9/11/2015 10:05:00 da tarde
Há sempre uma criança
em nosso horizonte de altas velocidades,
um ninho vazio nas mãos,
delgado corpo de aldeia à hora da sesta.
E o carvão de uma imensa noite
subindo pelas fontes onde correm
nossos terrores de caudaloso magma,
ávidos do centro
de um círculo perdido.
Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Miradouro, em Vila Flor.
Fotografia: Miradouro, em Vila Flor.
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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 9/11/2015 10:05:00 da tarde
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
[À Descoberta de Vila Flor] Já passaram 9 anos!
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| Vindima perto do Gavião - Seixo de Manhoses |
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| Cesta de cogumelos silvestres |
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| Fumeiro de Vila Flor numa das mostras TerraFlor |
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| Amendoeiras em Flor, uma das maiores atracções turísticas do nordeste transmontano |
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| Festa do foral manuelino em Freixiel |
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| Fruta da Vilariça - Feira TerraFlor |
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| Rua de Santa Luzia, ao fim do dia |
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| Vinho fino - Feira TerraFlor |
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| Festa de S. Bartolomeu |
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| Imagem de S. Bartolomeu |
Para já, desejo um bom ano a todos.
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| Bolo do 9.º aniversário, partilhado com amigos |
Números do 9.ºano:
Páginas vistas - 25.771Visitantes - 16.292
Comentários - 10
Postagens - 8
Km percorridos em BTT - 15
Km percorridos a pé - 59
Fotografias tiradas - 17.225
Fotografias publicadas - 45
![]() |
| Alguns dados estatísticos da evolução do Blogue |
Números totais (9 anos):
Páginas vistas - 751.379Visitantes - 352.090
Comentários - 1 884
Postagens - 1 167
Km percorridos em BTT(9 anos) - 4.580
Km percorridos a pé (9 anos) - 1.748
Fotografias tiradas - 161.320
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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 9/10/2015 11:34:00 da tarde
[À Descoberta de Vila Flor] Festa de S. João no Mourão
No dia 23 de Junho realizaram-se no Mourão as tradicionais festas de S. João. Este ano coincidiram com um dia feriado, o que me permitiu acompanhar de perto estas festividades.
Cheguei à aldeia a meio da tarde e a paz era tanta que eu pensei ter-me enganado na data. O palco montado na Largo de São Ciriaco desfez as minhas dúvidas. Depois de um largo passeio pela aldeia apercebi-me que as actividades estavam a decorrer no campo de futebol.
Nesse local decorreu uma animada disputa dos jogos da malha e do cepo, de que acompanhei a parte final. Estes jogos têm os seus adeptos habituais, que jogam como poucos e têm gosto em jogar. Estou habituado a vê-los, por exemplo na Festa das Maias, em Folgares. Em jogo estavam prémios como presuntos e cabritos, que já esperavam pelos vencedores dentro da casa dos milagres.
No largo preparavam-se tudo para um grande arraial. O porco no espeto começava a espalhar o seu aroma pelas redondezas. Preparavam-se as mesas e partia-se o pão. Mais tarde assaram-se as as sardinhas e barriga de porco.
Ao início da noite foi erguido o enorme mastro, um pinheiro com cerca de 10 metros de altura. Depois de revestido por palha, elevou-se às alturas com a força dos braços dos homens, já habituados a esta prática antiga.
Pouco depois das oito da noite, já com os prémios dos torneios entregues, iniciou-se o jantar. Parecia que a população de Mourão tinha triplicado! Na verdade havia pessoas de todo o concelho e até pessoas do concelho de Carrazeda de Ansiães!
O grupo musica, penso que se chamava "Terceira Geração", tocava música popular, nem sempre com grande afinação. É um grupo de jovens, irreverentes, que por vezes levaram o apimentado das músicas a excessos, mas poucos deviam estar com atenção às letras. A maior parte das pessoas dançava animadamente porque a noite estava muito fria, e, ou se aquecia o corpo com uns copos de vinho, ou com danças animadas ao som da concertina.
Já depois da meia noite foi pegado fogo ao vareiro. Estava vento e as chamas devoraram rapidamente a palha. Mal o pote de barro preso nas alturas caiu ao chão e se desfez em mil pedaços, também a multidão debandou, restituindo à aldeia a sua habitual pacatez.
A queima do vareiro é uma prática levada a cabo em muitas localidades de Portugal, mas na maior parte delas faz-se por altura do Carnaval (embora se faça também nos Santos Populares). Tentei falar com algumas pessoas e saber mais pormenores sobre a tradição mas, não encontrei grande receptividade. A organização desconhecia a existência deste blogue e tive alguma dificuldade em justificar a minha presença e o porquê de tantas fotografias.
Foi uma boa oportunidade para Descobrir mais do Mourão, mas acredito que as pessoas são mais recetivas e abertas do que o que senti. Voltarei, logo que haja outra oportunidade.
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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 6/25/2011 12:16:00 da tarde
Cheguei à aldeia a meio da tarde e a paz era tanta que eu pensei ter-me enganado na data. O palco montado na Largo de São Ciriaco desfez as minhas dúvidas. Depois de um largo passeio pela aldeia apercebi-me que as actividades estavam a decorrer no campo de futebol.
Nesse local decorreu uma animada disputa dos jogos da malha e do cepo, de que acompanhei a parte final. Estes jogos têm os seus adeptos habituais, que jogam como poucos e têm gosto em jogar. Estou habituado a vê-los, por exemplo na Festa das Maias, em Folgares. Em jogo estavam prémios como presuntos e cabritos, que já esperavam pelos vencedores dentro da casa dos milagres.
No largo preparavam-se tudo para um grande arraial. O porco no espeto começava a espalhar o seu aroma pelas redondezas. Preparavam-se as mesas e partia-se o pão. Mais tarde assaram-se as as sardinhas e barriga de porco.
Ao início da noite foi erguido o enorme mastro, um pinheiro com cerca de 10 metros de altura. Depois de revestido por palha, elevou-se às alturas com a força dos braços dos homens, já habituados a esta prática antiga.
Pouco depois das oito da noite, já com os prémios dos torneios entregues, iniciou-se o jantar. Parecia que a população de Mourão tinha triplicado! Na verdade havia pessoas de todo o concelho e até pessoas do concelho de Carrazeda de Ansiães!
O grupo musica, penso que se chamava "Terceira Geração", tocava música popular, nem sempre com grande afinação. É um grupo de jovens, irreverentes, que por vezes levaram o apimentado das músicas a excessos, mas poucos deviam estar com atenção às letras. A maior parte das pessoas dançava animadamente porque a noite estava muito fria, e, ou se aquecia o corpo com uns copos de vinho, ou com danças animadas ao som da concertina.
Já depois da meia noite foi pegado fogo ao vareiro. Estava vento e as chamas devoraram rapidamente a palha. Mal o pote de barro preso nas alturas caiu ao chão e se desfez em mil pedaços, também a multidão debandou, restituindo à aldeia a sua habitual pacatez.
A queima do vareiro é uma prática levada a cabo em muitas localidades de Portugal, mas na maior parte delas faz-se por altura do Carnaval (embora se faça também nos Santos Populares). Tentei falar com algumas pessoas e saber mais pormenores sobre a tradição mas, não encontrei grande receptividade. A organização desconhecia a existência deste blogue e tive alguma dificuldade em justificar a minha presença e o porquê de tantas fotografias.
Foi uma boa oportunidade para Descobrir mais do Mourão, mas acredito que as pessoas são mais recetivas e abertas do que o que senti. Voltarei, logo que haja outra oportunidade.
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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 6/25/2011 12:16:00 da tarde
segunda-feira, 27 de julho de 2015
[À Descoberta de Mondim de Basto] Noite dos Romeiros 2015
Se há um dia bom (ou noite) para partir À Descoberta do concelho de Mondim de Basto ele é sem dúvida o dia dos Romeiros de S. Tiago, integrado nas festas do concelho, a 24 de julho.
A escolha do dia não foi ao acaso. A palavra romeiro já diz muito e se há coisa que tenho feito nos últimos anos são peregrinações, não no sentido religioso mas embebido da magia da descoberta de acontecimentos genuínos. A primeira palavra que aprendi, ao procurar alguma informação sobre a Noite dos Romeiros, foi a palavra merendeiro! Imaginei muitos petiscos, sabores da terra, aquilo que de mais tradicional houve/há no concelho.
Este evento pretende recuperar a tradição dos romeiros que subiam à Senhora da Graça, vindos dos mais distantes locais do concelho. Traziam mantas e cestas de vime com os melhores petiscos que havia na época, que constituía o merendeiro, abundante, para alimentar a família durante os dias que durasse a romaria. O vinho era transportado em cabaças.
Cheguei a Mondim ao final da tarde. Praticamente era tudo novo para mim. Estive em Mondim de Basto apenas por duas vezes: a primeira foi há cerca de 15 anos e dela apenas recordo um bonito espaço verde, com um lago e várias espécies de patos. A segunda foi no mês de maio passado, com entrada pela freguesia de Atei e saída pela freguesia de Ermelo e Pardelhas, sempre com um cenário fantástico, mas sem tempo suficiente para poder "saborear" as bonitas paisagens que fui encontrando. Desta vez teria mais tempo, mas havia que aproveitá-lo.
À chegada já se viam pessoas pelas ruas envergando trajes muito pouco comuns para os dias de hoje. Já eram os trajes para o desfile. Apenas houve tempo para fazer o check-in no hotel e sair para a rua, para não perder pitada.
O dia amanheceu triste, chuvoso até, mas quando sol se escondeu no horizonte encheu a vila numa luz bonita, em harmonia com a iluminação nocturna que também já estava ligada.
Dividi-me entre a vontade de ficar na rua, a acompanhar os vários grupos que já cantavam e tocavam, e a necessidade de comer alguma coisa, porque a noite ia ser longa. Consegui fazer as duas coisas, mas nenhuma com calma.
Encontrei uma tasquinha, com aspecto muito rústico e interessante, com uma mesa vaga. Não procurei mais e abanquei-me ali mesmo, no verdadeiro sentido da palavra.
Havia muitos e variados petiscos à escolha, o difícil foi mesmo escolher, mas o tempo era pouco. Como transmontano, habituado aos bons vinhos maduros do Douro, também no vinho tive alguma dificuldade. Há um conjunto de termos que são bastante diferentes de concelho para concelho, no que se refere à gastronomia, mas a ideia era mesmo experimentar, descobrir. Saíram um pezinhos de coentrada, pataniscas de bacalhau e arroz de feijão e porco preto com batata a murro. Não arrisquei no vinho verde, preocupado que não me caísse bem e me estragasse a noite.
Talvez porque as expectativas fossem altas, não foi uma boa experiência gastronómica.
Pelas 21:30 estava tudo pronto na Av. Dr. Augusto Brito para o início do desfile. Estava à espera de muitos grupos, mas aquilo que encontrei superou todas as expectativas. Contei 32 grupos, não sei se havia mais.
Dei-me ao cuidado de ler o regulamento do desfile, por isso nem tudo foi surpresa. No entanto, há algumas constatações que merecem realce: é muito interessante verificar que os grupos eram constituídos por pessoas com grande amplitude de idades. À frente, segurando a placa identificativa, iam quase sempre crianças (e por isso mereceram a minha atenção fotográfica), mas havia muitos jovens e idosos. Pude até verificar que os idosos eram acarinhados nos grupos, talvez por serem eles que têm mais forte a tradição. Cantavam com grande entusiasmo.
A segunda surpresa foram os instrumentos. Estou muito mais habituado a festas e arraiais onde predomina a gaita de foles. Por isso, ver e ouvir tanta concertina foi um momento único. A sonoridade deste instrumento é, só por si, uma festa. Já os trajes não diferem muitos dos que podemos encontrar noutras pontos de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Assisti à passagem dos diferentes grupos, um a um. Foi muita informação em simultâneo para "processar", mas ainda fiquei com algumas quadras:
Somos Romeiros
E gostamos de Cantar
Do Vilarinho
Nós viemos festejar.
Nós somos do Vilarinho
Viemos p'ra Romaria
Para as festas de Mondim
trazemos muita alegria.
Nossa Senhora da Graça
Vinde a baixo dai-me a mão
Que sou Romeirinha nova
Abafo do coração.
Desloquei-me depois para o Largo do Conde de Vila Real, onde assisti à chegada da maioria dos grupos. A alegria era a mesma, talvez até maior, fruto do entusiasmo e dos muitos líquidos "energéticos" bebidos pelo caminho. O Sr. Presidente da Câmara, juntamente com outras personalidades, cumprimentavam, um, a um, os diferentes grupos.
Todo o Largo, bem como a Praça 9 de Abril e Avenida dos Bombeiros tinham marcações e fardos de palha para as toalhas e merenda. Os grupos eram extensos, a merenda muita e foram espalhadas toalhas pelo chão e na relva do jardim onde foram postos surpreendentes manjares, uns mais antigos, outras nem tanto. Havia bivalves e pizzas, mas eram excepções, quase todos os grupos apresentavam; bacalhau frito com ovos, pataniscas, cebolas com vinagre, pepinos com sal, sardinhas ou peixinhos do rio, bolinhos de bacalhau, presunto, enchidos variados, azeitonas, bolos, bolas de carne, migas de pão, tremoços, etc. etc.
Tive oportunidade de provar alguns petiscos, aqueles que mais me chamavam à atenção, principalmente por me serem pouco familiares. Estava tudo muito saboroso.
Durante horas as pessoas comeram, beberam, tocaram, cantaram e dançaram. Os grupos estavam muito próximos e era uma festa de festas, com cantares típicos, concertinas, bombos e pandeiretas e pessoas a dançarem, algumas descalças,
Depois da uma da manhã foi a aparelhagem sonora que animou a malta e tive nova surpresa: novos e velhos a dançarem em comum, música pimba e outra nem tanto (Fasto, por exemplo). Curiosamente todos dançavam com muita alegria. Há muito que não via um arraial assim!
Perto das três da manhã abandonei o recinto. A música continuou a tocar e a animação durou até ao nascer do dia (talvez por isso, foram poucos os que compareceram na Senhora da Graça, para a festa religiosa).
Pela manhã do dia 25 seria de esperar que houvesse muito lixo pelo chão, mas quando fiz um passeio pela vila já tudo tinha sido limpo e nas flores do jardim cintilavam pérolas de água usada na rega.
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Publicada por Blogger às À Descoberta de Mondim de Basto a 7/27/2015 01:44:00 da tarde
A escolha do dia não foi ao acaso. A palavra romeiro já diz muito e se há coisa que tenho feito nos últimos anos são peregrinações, não no sentido religioso mas embebido da magia da descoberta de acontecimentos genuínos. A primeira palavra que aprendi, ao procurar alguma informação sobre a Noite dos Romeiros, foi a palavra merendeiro! Imaginei muitos petiscos, sabores da terra, aquilo que de mais tradicional houve/há no concelho.
Este evento pretende recuperar a tradição dos romeiros que subiam à Senhora da Graça, vindos dos mais distantes locais do concelho. Traziam mantas e cestas de vime com os melhores petiscos que havia na época, que constituía o merendeiro, abundante, para alimentar a família durante os dias que durasse a romaria. O vinho era transportado em cabaças.
Cheguei a Mondim ao final da tarde. Praticamente era tudo novo para mim. Estive em Mondim de Basto apenas por duas vezes: a primeira foi há cerca de 15 anos e dela apenas recordo um bonito espaço verde, com um lago e várias espécies de patos. A segunda foi no mês de maio passado, com entrada pela freguesia de Atei e saída pela freguesia de Ermelo e Pardelhas, sempre com um cenário fantástico, mas sem tempo suficiente para poder "saborear" as bonitas paisagens que fui encontrando. Desta vez teria mais tempo, mas havia que aproveitá-lo.
À chegada já se viam pessoas pelas ruas envergando trajes muito pouco comuns para os dias de hoje. Já eram os trajes para o desfile. Apenas houve tempo para fazer o check-in no hotel e sair para a rua, para não perder pitada.
O dia amanheceu triste, chuvoso até, mas quando sol se escondeu no horizonte encheu a vila numa luz bonita, em harmonia com a iluminação nocturna que também já estava ligada.
Dividi-me entre a vontade de ficar na rua, a acompanhar os vários grupos que já cantavam e tocavam, e a necessidade de comer alguma coisa, porque a noite ia ser longa. Consegui fazer as duas coisas, mas nenhuma com calma.
Encontrei uma tasquinha, com aspecto muito rústico e interessante, com uma mesa vaga. Não procurei mais e abanquei-me ali mesmo, no verdadeiro sentido da palavra.
Havia muitos e variados petiscos à escolha, o difícil foi mesmo escolher, mas o tempo era pouco. Como transmontano, habituado aos bons vinhos maduros do Douro, também no vinho tive alguma dificuldade. Há um conjunto de termos que são bastante diferentes de concelho para concelho, no que se refere à gastronomia, mas a ideia era mesmo experimentar, descobrir. Saíram um pezinhos de coentrada, pataniscas de bacalhau e arroz de feijão e porco preto com batata a murro. Não arrisquei no vinho verde, preocupado que não me caísse bem e me estragasse a noite.
Talvez porque as expectativas fossem altas, não foi uma boa experiência gastronómica.
Pelas 21:30 estava tudo pronto na Av. Dr. Augusto Brito para o início do desfile. Estava à espera de muitos grupos, mas aquilo que encontrei superou todas as expectativas. Contei 32 grupos, não sei se havia mais.
Dei-me ao cuidado de ler o regulamento do desfile, por isso nem tudo foi surpresa. No entanto, há algumas constatações que merecem realce: é muito interessante verificar que os grupos eram constituídos por pessoas com grande amplitude de idades. À frente, segurando a placa identificativa, iam quase sempre crianças (e por isso mereceram a minha atenção fotográfica), mas havia muitos jovens e idosos. Pude até verificar que os idosos eram acarinhados nos grupos, talvez por serem eles que têm mais forte a tradição. Cantavam com grande entusiasmo.
A segunda surpresa foram os instrumentos. Estou muito mais habituado a festas e arraiais onde predomina a gaita de foles. Por isso, ver e ouvir tanta concertina foi um momento único. A sonoridade deste instrumento é, só por si, uma festa. Já os trajes não diferem muitos dos que podemos encontrar noutras pontos de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Assisti à passagem dos diferentes grupos, um a um. Foi muita informação em simultâneo para "processar", mas ainda fiquei com algumas quadras:
Somos Romeiros
E gostamos de Cantar
Do Vilarinho
Nós viemos festejar.
Nós somos do Vilarinho
Viemos p'ra Romaria
Para as festas de Mondim
trazemos muita alegria.
Nossa Senhora da Graça
Vinde a baixo dai-me a mão
Que sou Romeirinha nova
Abafo do coração.
Desloquei-me depois para o Largo do Conde de Vila Real, onde assisti à chegada da maioria dos grupos. A alegria era a mesma, talvez até maior, fruto do entusiasmo e dos muitos líquidos "energéticos" bebidos pelo caminho. O Sr. Presidente da Câmara, juntamente com outras personalidades, cumprimentavam, um, a um, os diferentes grupos.
Todo o Largo, bem como a Praça 9 de Abril e Avenida dos Bombeiros tinham marcações e fardos de palha para as toalhas e merenda. Os grupos eram extensos, a merenda muita e foram espalhadas toalhas pelo chão e na relva do jardim onde foram postos surpreendentes manjares, uns mais antigos, outras nem tanto. Havia bivalves e pizzas, mas eram excepções, quase todos os grupos apresentavam; bacalhau frito com ovos, pataniscas, cebolas com vinagre, pepinos com sal, sardinhas ou peixinhos do rio, bolinhos de bacalhau, presunto, enchidos variados, azeitonas, bolos, bolas de carne, migas de pão, tremoços, etc. etc.
Tive oportunidade de provar alguns petiscos, aqueles que mais me chamavam à atenção, principalmente por me serem pouco familiares. Estava tudo muito saboroso.
Durante horas as pessoas comeram, beberam, tocaram, cantaram e dançaram. Os grupos estavam muito próximos e era uma festa de festas, com cantares típicos, concertinas, bombos e pandeiretas e pessoas a dançarem, algumas descalças,
Depois da uma da manhã foi a aparelhagem sonora que animou a malta e tive nova surpresa: novos e velhos a dançarem em comum, música pimba e outra nem tanto (Fasto, por exemplo). Curiosamente todos dançavam com muita alegria. Há muito que não via um arraial assim!
Perto das três da manhã abandonei o recinto. A música continuou a tocar e a animação durou até ao nascer do dia (talvez por isso, foram poucos os que compareceram na Senhora da Graça, para a festa religiosa).
Pela manhã do dia 25 seria de esperar que houvesse muito lixo pelo chão, mas quando fiz um passeio pela vila já tudo tinha sido limpo e nas flores do jardim cintilavam pérolas de água usada na rega.
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Publicada por Blogger às À Descoberta de Mondim de Basto a 7/27/2015 01:44:00 da tarde
[À Descoberta de Vila Flor] Rotunda
"Em tempos que não vão longe, descia do Gavião, bolsa atravessada. Do alto do povoado, com a corneta de local delido, juntava, pelo eirô, os interessados em notícias.
O acto rotineiro acertava a aldeia sem relógio de campanário.
- Co...rrei...o...o!
A penúltima sílaba era sempre longa, atirada com o fôlego de alegria cheia. Quer em dias de casa, aborrecido; quer em manhãs de primavera; ou na ventania agreste do outono esvaecido, ou pelo inverno triste com palmos de nevoeiro.
- Dê-me um de dez tostões!
- Vosselência não tem nada hoje!
- Hoje, não, não pode ser sempre. Remate ao sebastianismo ingénuo do seu faminto rebanho.
Vivia todo preso àquele seu mundo. De graça, dava boas novas, de graça, entregava notícias más.
Se ele soubesse o que oferecia , às vezes, dentro de um sobrescrito, não daria a ninguém novas de sofrimento.
- Espere aí, pegue lá um copito, é p'ró caminho!
- V, então, depressa e eu é que lhe agradeço.
- D'hoje a um ano!
- E o senhor que os conte...
Na horta do portão, naquela tarde dos pássaros não cantarem, pousou a cabeça, duas pedrinhas e, de borco, sorveu dois tragos fundos da fontela.
- Tu não vens bô, home!
- Que é que vocemecê tem, meu pai?
- São uns frios, isto não é nada!
- Vamos ainda pôr as batatas?
No outro dia, a corneta não se ouviu no povoado. Depois, e depois... e sempre, foi outro de semblante mais triste. O povo não gostou.
Já não se ouvia a corneta do alto da sua aldeia."
Poema de Nascimento Fonseca*, publicado no jornal Enié a 15-10-1975.
Fotografias, pela ordem: Aldeia abandonada do Gavião; Vista parcial da aldeia do Nabo; paisagem em direção ao vale da Vilariça, a partir de Vila Flor; marco do correio existente na Praça da República em Vila Flor.
*José do Nascimento Fonseca nasceu no Nabo a 22-12-1940 e faleceu a 27-07-1983.
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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 7/27/2015 01:53:00 da tarde
O acto rotineiro acertava a aldeia sem relógio de campanário.
- Co...rrei...o...o!
A penúltima sílaba era sempre longa, atirada com o fôlego de alegria cheia. Quer em dias de casa, aborrecido; quer em manhãs de primavera; ou na ventania agreste do outono esvaecido, ou pelo inverno triste com palmos de nevoeiro.
- Dê-me um de dez tostões!
- Vosselência não tem nada hoje!
- Hoje, não, não pode ser sempre. Remate ao sebastianismo ingénuo do seu faminto rebanho.
Vivia todo preso àquele seu mundo. De graça, dava boas novas, de graça, entregava notícias más.
Se ele soubesse o que oferecia , às vezes, dentro de um sobrescrito, não daria a ninguém novas de sofrimento.
- Espere aí, pegue lá um copito, é p'ró caminho!
- V, então, depressa e eu é que lhe agradeço.
- D'hoje a um ano!
- E o senhor que os conte...
Na horta do portão, naquela tarde dos pássaros não cantarem, pousou a cabeça, duas pedrinhas e, de borco, sorveu dois tragos fundos da fontela.
- Tu não vens bô, home!
- Que é que vocemecê tem, meu pai?
- São uns frios, isto não é nada!
- Vamos ainda pôr as batatas?
No outro dia, a corneta não se ouviu no povoado. Depois, e depois... e sempre, foi outro de semblante mais triste. O povo não gostou.
Já não se ouvia a corneta do alto da sua aldeia."
Poema de Nascimento Fonseca*, publicado no jornal Enié a 15-10-1975.
Fotografias, pela ordem: Aldeia abandonada do Gavião; Vista parcial da aldeia do Nabo; paisagem em direção ao vale da Vilariça, a partir de Vila Flor; marco do correio existente na Praça da República em Vila Flor.
*José do Nascimento Fonseca nasceu no Nabo a 22-12-1940 e faleceu a 27-07-1983.
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Publicada por Blogger às À Descoberta de Vila Flor a 7/27/2015 01:53:00 da tarde
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